Setembro é um mês especial para a comunidade surda no Brasil. Isso porque, comemora-se no dia 24 de setembro o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), e no dia 26 o Dia Nacional do Surdo, lembrando a data em que foi fundado o INES – Instituto Nacional de Educação de Surdo.

E para entender um pouco melhor sobre a cultura surda, conversamos com professora e intérprete de Libras Valdinéia Nascimento, conhecida também apenas como Professora Val. Formada em Pedagogia, Psicopedagogia e Tradução e Interpretação de Libras/Língua Portuguesa, ela dá aulas para o ensino fundamental há quase 20 anos. O convívio com as crianças surdas em sala de aula despertou uma curiosidade para com a língua de sinais. Ela achava bonito e queria entender se aqueles movimentos eram uma língua mesmo e como funcionava essa comunicação. “Será que aquelas mãos tinham a capacidade de discutir sobre tudo?”, pensava.

Val já fez contação de histórias em libras na Biblioteca Municipal. (Foto: arquivo pessoal)

Foi com essa motivação que a professora procurou um curso básico de libras. Após iniciar nesse novo mundo ela não quis mais parar. Foi expandindo os conhecimentos no curso intermediário e, antes de finalizar o avançado, já atuava como intérprete de libras em uma universidade. Ao mesmo tempo que trabalhava com Surdos adultos na universidade, trabalhava com uma criança surda em uma escola municipal de Jundiaí.

Trabalho com crianças surdas

Ela foi convidada a deixar a sala de aula para acompanhar como intérprete uma criança surda. “Quando conheci a Isabela, achava que ela sabia língua de sinais, mas na verdade não sabia. Ela se comunicava por meio de gestos e mímicas, muitas vezes de forma agressiva e sem noção de regras sociais.” Val foi ajudando a menina a entender a língua e acompanhando com anotações o que ela ia construindo e entendendo do mundo, fazendo uma troca: “Enquanto eu ensinava sobre a língua de sinais, ela me ensinava sobre o mundo dela.”

“A Isabela me ensinou muito neste percurso, descobri que é possível fazer a diferença na vida dos alunos!” disse Val. (Foto: Arquivo pessoal)

Ela acompanhou Isabela de 2013 a 2015, viu o seu desenvolvimento ao longo dos meses e uma mudança de comportamento. Como qualquer criança, participava das aulas de dança, de música, e capoeira. A classe também aprendeu muito com ela, que ensinava libras para os colegas de classe e professores. Ao final desse trabalho, Val foi inspirada a escrever seu primeiro livro “A Criança Surda: Possibilidades de Aprendizagem”, um livro que é um convite a imersão no mundo dos Surdos e conta a experiência que teve com a primeira criança surda que trabalhou.

O livro traz a vivência sobre o processo de inclusão de uma criança surda em uma escola de Jundiaí. (Foto: divulgação/internet)

Após, Val foi convidada a atuar na Diretoria de Educação Inclusiva de Jundiaí como Coordenadora Pedagógica, onde ficou mais dois anos. Antes de voltar para a sala de aula, ela teve o conhecimento que na cidade havia uma criança surdocega, um menino que não se comunicava com ninguém e estava iniciando a comunicação por libras tátil. Ela resolveu ajudar também essa criança, sabendo que seria um grande desafio, porém queria entender e auxiliá-la no processo de comunicação.

O nome da criança é Gustavo, e eles já estão trabalhando juntos há três anos. Val conta que só foi depois de 18 meses que ele começou a dar respostas que estava entendendo, pois, até então, todos achavam que ele tinha algum problema cognitivo. No início ele gostava de ficar no cantinho, e aos poucos foi tirado esse conforto e trazido para o convívio das crianças. E é notável uma grande evolução na sua aprendizagem.

Desafios e inclusão do Surdo

Quando começou a dar aulas, em meados de 1998, ainda não se falava sobre inclusão. Sempre foi algo muito delicado, a falta de conhecimento de outras pessoas sobre o assunto dificulta essa questão.

O maior desejo dos surdos, é que todos entendam eles em sua língua, se a sociedade soubesse língua de sinais, não haveria barreiras, porque a única barreira é a da comunicação.

Val conversou com o atleta paraolímpico e presidente do Clube dos Surdos de Jundiaí, João Batista Gaudêncio, que também representou o Brasil na surdolimpíadas na Turquia. Ela perguntou quais eram os maiores desafios daqueles que tem a surdez. Ele contou que é muito fácil para o Surdo se comunicar em um supermercado ou em uma loja, mas existem três lugares que são muito complicados:

  • Instituições bancárias: é difícil fazer um pedido no banco e ser entendido;
  • Segurança pública: relatar um problema na delegacia também é complicado;
  • Área da saúde: imagine o medo de receber um medicamento errado?
João Batista fez uma palestra para alunos surdos e ouvintes, Val contou que essa representatividade é muito importante. (Foto: divulgação)

São locais que não podem ter erros e deveriam haver intérpretes, mas na maioria das vezes não tem. Val acredita que já evoluímos bastante, mas ainda há muito para caminharmos enquanto país, principalmente quando se fala em Políticas Públicas em relação a inclusão de forma geral. Quando trabalhamos com inclusão, não transformamos só a pessoa que precisa ser incluída, mas todo o ambiente, amigos e família.

É preciso entender que o Surdo é capaz e pode fazer tudo o que o ouvinte pode, exceto ouvir. Eles estudam, trabalham e ensinam. A inclusão ocorre quando procuramos entender e ser mais compreensivos com tudo e todos que são diferentes de nós.

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