Você já parou para pensar como é possível que uma simples conversa possa mudar o futuro de outras pessoas? Que com um simples “eu quero”, em algum momento você poderá ajudar a salvar diversas outras vidas? Pois é, parece algo inimaginável duas palavrinhas terem tal poder, mas no processo de doação de órgãos, ah como essas palavras têm, viu!

Exemplo claro disso, e em certa medida até providencial, é o caso de José Edilson Barbosa, de 57 anos, que poucos dias antes de falecer em decorrência de uma grave queda sofrida, manifestou em uma conversa descontraída com familiares o desejo de doar seus órgãos. Testemunha de um dos últimos desejos de José, a filha Maria Alexandra de Souza Barbosa conta que o assunto era pouco comentado entre a família, e que aquela foi a única vez que ouviu o pai manifestar tal vontade. 

“Duas semanas antes do acontecido, quando me despedia, ele disse que se um dia ele morresse podia doar tudo que desse para doar, e o que não prestasse jogasse no lixo. E então eu falei que não ia acontecer nada, e ele repetiu a mesma frase. Na hora achei que era brincadeira, dei um beijo nele e fui embora”, lembra o caso. Dias depois do encontro, no dia 5 de agosto era realizado no Hospital São Vicente o procedimento de doação de seus órgãos.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Uma escolha difícil

Maria conta que logo após o acidente, ela foi a única pessoa próxima de José a ter acesso ao centro cirúrgico. Àquela altura, toda a família já sabia que o acidente tinha sido muito grave e o risco de morte era muito grande. “Estávamos todos cientes, mas com fé em Deus acreditávamos que tudo daria certo, a esperança é a última que morre. E a gente acreditava que o quadro dele iria se reverter, quando na verdade não.”

Após alguns dias de internação, na véspera da morte de José, Maria foi chamada ao hospital e o médico responsável pelo caso de seu pai a avisou que uma junta médica faria uma última reunião para avaliar seu estado. “Ele não mais respondia aos últimos estímulos, e foi aí que meu mundo desabou. Sabe aquele último pingo de chance que acaba e você não vê mais nada? A partir daí, era pedir a Deus para que fosse feita a vontade Dele”, conta emocionada a filha.

Maria Alexandra e seu pai. (Foto: Arquivo Pessoal/ Reprodução)

No dia seguinte, 5 de agosto, os médicos pediam a ida dos familiares de seu José ao hospital, para lá informar sua morte encefálica e conversar sobre a possibilidade da doação de seus órgãos. O médico responsável pelo caso, acompanhado por um psicólogo e uma enfermeira, deu todo o respaldo acerca da situação de seu José, e explicou os procedimentos e tirou as dúvidas referentes à doação. “Depois que assinarmos os papéis permitindo a doação, fomos ver meu pai pela última vez, para nos despedirmos dele. Por fim, veio aquele sentimento de ‘será que eu tô fazendo a coisa certa?‘, ‘será que ele não está vivo ainda?’. Mas, no fundo, a gente sabia que não.”

Três novas chances

Apesar de que fosse necessário apenas um ‘sim’ para a doação, tal decisão não foi nada fácil para Maria. “Não é uma decisão fácil, não pelo fato de não fazer a doação, mas pelo fato de você entrar na sala e ver seu pai respirando, mesmo sabendo que é pelos aparelhos. Então você acredita que, pelo que seus olhos veem, a pessoa está viva, mas na verdade não está. Mas eu tomei a decisão que faríamos a doação, e eu falo pra você: eu não me arrependo! Porque eu gostaria muito, sem nem hesitar, que fizessem o mesmo por mim”, afirma.

Os órgãos que puderam ser doados por seu José foram os rins, fígado e as córneas, possibilitando dessa forma que, no mínimo, três outras pessoas ganhassem uma outra chance. “Eu espero que tenha dado tudo certo na vida dessas pessoas. É um procedimento comum do hospital passar para a família só para qual lugar que foi levado os órgãos, mas não a identidade dos receptores. Eu gostaria muito de saber quem são e poder abraçá-los, poder enxergar a vida que meu pai deixou. Mas, graças a Deus e ao meu pai, a gente pôde ajudar mais três famílias a continuarem aproveitando seus familiares”. 

José teve um segundo casamento, a qual teve seu segundo filho, atualmente com 11 anos. (Foto: Arquivo Pessoal/ Reprodução)

Um outro olhar

E, antes mesmo disso tudo, Maria já havia manifestado à sua mãe o desejo de doar seus órgãos. E é claro que tal desejo se tornou ainda mais forte depois do ato heroico do pai. “A gente começa a enxergar o mundo de outro jeito. Eu já achava a doação muito importante, mas depois desse fato em nossas vidas eu acho ainda mais. Eu acredito que desta vida nós não levamos nada. Meu pai deixou tudo, a gente deixa tudo para trás. O que levamos são as lembranças boas que a gente viveu e que as pessoas que nos rodeiam viveram com a gente.”

Tem tantas pessoas que brigam, que se desentendem, que se ofendem por coisas banais, que lutam e morrem por bens materiais, sendo que daqui não iremos levar nada. Sabe o que é nada? Quando tem de morrer, a gente não volta pra nada. Então, eu espero que com esse ato que a nossa família decidiu ter, o pensamento de muitas pessoas seja mudado.

Maria afirma que, hoje, sua maior alegria é ver uma outra família feliz, como ela mesma gostaria de estar caso fosse seu pai que tivesse tido a chance de uma nova vida. “Se ele tivesse a chance de receber uma parte do corpo de uma outra pessoa para que ficasse vivo, eu ia gostar muito que fizessem isso por ele. Mas não foi assim, foi ele quem teve a chance de dar uma parte de si para que uma outra pessoa pudesse ter uma vida melhor, e eu fico feliz do mesmo jeito. Por isso eu apoio, eu acredito que a doação seja muito importante, muito mesmo”, finaliza.

Doe vida!

Antes de mais nada é bom saber que existem duas categorias de doadores, e que eu e você podemos nos encaixar em ambas! A primeira é a de doador vivo, que de acordo com o Ministério da Saúde pode ser qualquer pessoa que concorde com a doação, desde que sua saúde não seja prejudicada. Podem ser doados um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea ou parte do pulmão. A lei permite que parentes de até quarto grau e cônjuges possam ser doadores. Já para não parentes, a única possibilidade é com autorização judicial.

Até a publicação dessa matéria, foram realizados no Hospital São Vicente 6 procedimentos de receptação de órgãos em 2020, o mais recente realizado no dia 25 de setembro. A receptação dos órgãos de seu José foi o quinto procedimento do ano no hospital. (Foto: HSV/ Reprodução)

Por sua vez, a segunda categoria é a de doador falecido, que são os pacientes com morte encefálica decretada. Nesses casos, a doação dos órgãos só poderá ser realizada após a autorização da família. Por isso a importância de se conversar previamente com a sua família sobre o desejo de ser doador e deixar claro que eles, no momento oportuno, devem autorizar a doação de seus órgãos. Para mais informações, visite essa página criada especialmente pelo Ministério da Saúde sobre a doação de órgãos.


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