Em uma casa laranja, ali no Jardim Paraíso o encontro. Ele me esperava, e eu esperava por ele. Queria ouvir, fui disposta.  

Antônio Luiz Martins, mais conhecido como Tony, é o tipo de pessoa que de longe você sabe que tem muito a ensinar. Ele me revelou tantas sabedorias, que daria para escrever um livro. Nasceu e morou a vida toda em Botucatu. Teve uma juventude movimentada, sempre independente. Aos 18 anos já era funcionário público da Unesp-Lageado. Tinha tantos prazeres: o futebol, o violão, os amigos e a vida boêmia. 

O acidente 


No dia oito de novembro de 1991, aos 26 anos, sofreu um acidente de carro. Os três amigos que o acompanhavam tiveram apenas pequenos arranhões, mas Tony teve a notícia de que havia ficado tetraplégico. Seus movimentos eram apenas do pescoço para cima. Daí em diante aconteceriam grandes mudanças. A maior delas, aconteceria dentro dele.  

“Os primeiros cinco anos foram os mais difíceis. A adaptação é demorada, aceitar a realidade pode doer muito.”  

A tristeza era cotidiana, um vazio enorme. As horas não passavam e ele reavaliava sua vida até ali. A pergunta vinha: Por que comigo?  

O suporte da família e o apoio dos poucos amigos que ficaram após o acidente, foi o que fez Tony conseguir encarar a nova vida. Precisou passar por três cirurgias, tratamento em São Paulo e muita fisioterapia.

A arte  

Foi justamente de sua fisioterapeuta a ideia da pintura em tela. A princípio ele não levou a sério, mal sabia que sua vida estava prestes a (re)começar. 
Na arte ele se descobriu, se encontrou, se entregou.  

Após alguns anos pintando, seus quadros começaram a chamar atenção. Eram detalhes e cores que cativavam. Algo dentro dele começou a despertar. Nascia ali um novo homem.  

Tony ressignificou sua existência
Foto: Bianca Camargo

Foi convidado a dar aulas de pintura para idosos, depois para crianças e adultos no Projeto Escola da Família, onde chegou a ganhar até prêmio. Viver finalmente fazia sentido. Sentiu-se fortalecido. A cadeira de rodas, que antes era vista com repúdio, agora se tornava sua companheira, nada mais o impedia.  

“Sempre senti que o desafio me procurava, e agora eu me sentia capaz para enfrentá-lo.”  

Começou como uma terapia, virou profissão
Foto: Facebook

História de amor  

Que a arte virou a inspiração da vida de Tony, isso já deu para perceber. Mas o amor chegou quando conheceu Bernadete. Ele tinha muito medo de se relacionar e foi ela quem lhe mostrou o amor, aos pouquinhos. ”Mulher da minha vida”, disse ele em um breve sorriso.   

A conversa que começou na internet, virou realidade. Depois de se conhecerem, namoraram por quatro anos, casaram e compraram a casa. “Tudo tem seu tempo”, repetia.  

Namoro virtual que virou casamento, Tony e Bernadete já estão a 10 anos juntos
Foto: Bianca Camargo

Reconhecimento  

Em outubro de 2010, Tony ganhou uma bolsa da APBP (Associação dos Pintores com a Boca e Pés), da Suíça. Hoje, além de bolsista, ele também dá aulas de pintura no seu ateliê, realiza palestras e vende seus quadros.  

Inspiração de vida  

Ele me contou que com o acidente, começou a ter consciência e agradecer pelos pequenos milagres diários. 

“Eu sou mais feliz hoje. Sei o valor da vida, nada vale mais que acordar ao lado de quem você ama, o canto dos passarinhos, o sorriso de uma criança. Fiz uma lista do que eu ganhei e do que perdi após o acidente. Ganhei muito mais que perdi. Nada é por acaso” (Nesse momento da conversa caiu um cisco no meu olho).  

Pedi um conselho. 

“Não desista nunca. Não tenha medo dos desafios. Não conhecemos o nosso poder, podemos tudo.”  

  Concluo agradecendo a oportunidade de conhecê-lo, e com uma frase, que fala sobre o meu sentimento de admiração e aprendizado, tanto pela arte do Tony, como pelo próprio Tony:  

“Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver.”   
Bertold Brecht 

Há mais estrelas no céu do que pedras no caminho
Foto: Anna Aglio


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