Conversamos com o Maurício, nascido e criado em Jundiaí, professor há mais de 30 anos e proprietário do Sebo, uma figura bastante conhecida da cidade e que diz conhecer tudo sobre a mesma! Ele nos contou um pouco de sua história e de como o Sebo iniciou as suas atividades.

O Sebo foi aberto em 2004, “Eu o montei mas ainda tinha outras atividades, pois economicamente ele só ficou viável 4 anos após a abertura.” Maurício nos conta que era um projeto que tinha desde mais novo, “Hoje somos um dos maiores acervos do interior do Brasil, perdemos em qualidade e quantidade para pouquíssimos sebos de São Paulo e Curitiba.”

(Foto: JJ/ Reprodução)

Mas… sebo?

Mas afinal, o que são os sebos? “Eles existem no mundo antes da livraria, era o local onde se aglutinavam os livros, os chamados sebistas ou alfarrabistas eram as pessoas que compravam e vendiam livros, pois não tinha outro lugar específico pra isso, as livrarias são um advento que vieram séculos após os sebos.” Interessante não é?!

A história do Sebo Jundiaí começa lá atrás, com um sonho de Maurício… “Eu era adolescente e trabalhava de office boy, uma profissão que quase nem existe mais, em uma agência de turismo. Jundiaí tinha apenas duas e para pegar uma simples confirmação de uma passagem aérea eu tinha que pegar a passagem, botar numa pasta, pegar o cometa, descer em São Paulo, ir na agência, daí o cara carimbava, eu trazia de volta, era assim que se fazia… Lá eu conhecia os Sebos, porque aqui não tinha. Passei a conhecer os Sebos de São Paulo e Campinas e com muita vontade eu pensava ‘poxa Jundiaí merecia uma hora ter um negócio assim, pra poder levar cultura e pra incentivar novos leitores’”.

Foi nessa época que surgiu a ideia, vendo outros Sebos dos anos 80, “Foi isso, um sonho de adolescente que acabou se tornando realidade, começando esse projeto e fazendo investimento ao longo do tempo! Quando comecei ele ficava em uma garagem bem pequena na Ponte São João, e eu fui comprando acervo, garimpando, visitando cidades, feiras, bazares, vendo anúncio no jornal, aí eu fui aumentando cada vez mais o acervo.”

Acervo

Seu acervo é enorme!!! “Contamos com mais de 100 mil livros, todos de muita qualidade, pois fazemos uma triagem, também temos 12 mil discos de vinil, 18 mil CDs originais, 50 mil gibis e mangás, além das revistas, catálogos, dentre outras coisas.” Haja espaço pra colocar tudo isso! “Todo o acervo é comprado, não aceitamos doações, às vezes alguém vem trazer doação e eu falo ‘vou ver se é algo que tem demanda comercial’, estipulo um valor em dinheiro ou uma troca e, aqueles que não tem demanda comercial, eu encaminho para entidades da nossa região. E olha que legal! Se você comprar um livro lá hoje, pode usar como crédito para comprar um outro quando terminar de ler.

Ele nos contou que os valores e quantidades dos livros, assim como qualquer produto, vai depender da demanda e da raridade do livro. Por exemplo, livros que estão na lista de didáticos e paradidáticos de 2018 das escolas geralmente tem um valor um pouco maior, pois tem uma demanda alta, “Eu tenho clássicos internacionais e nacionais que é R$ 1,00, R$ 5,00 e que não vende, porque não tem demanda… Você pega a série do Crepúsculo que chegou a custar R$ 150,00 um livro, e hoje eu não consigo vender a R$ 5,00.”

(Foto: Prof. Maurício Ferreira/ Sebo Jundiaí/ Reprodução)

Os livros que tem mais demanda são os de alguns autores consagrados, lista de escola, vestibulares, livros espíritas, da Clarice Lispector, esotéricos, etc. Ele também diz que tem que ficar atento as novidades do mercado, “Tem gente que é cliente meu e não espera chegar aqui, vai na livraria, já lê, e já troca aqui. Mas eu tenho muitos livros que estão aqui e que também estão na livraria! O paulistano, campineiro, curitibano, já nasceram sabendo, eles vão buscar num sebo primeiro e se não tiver ele vai na livraria! Em Jundiaí, modéstia parte, a gente que conseguiu ir mudando essa mentalidade, mas é um trabalho de formiguinha! O pessoal caiu no nosso sebo, pois eles procuravam na livraria e não tinha, porque eles não possuem estoque, daí vinham no sebo e tinham uma surpresa, tem pronta entrega, o livro de R$ 60,00 tá R$ 20,00, novo e impecável!”

Eles possuem uma variedade imensa de livros, inclusive literatura estrangeira, com livros em inglês, espanhol, alemão, árabe e até coreano! Os diferenciais do Sebo é o seu acervo enorme, a quantidade e qualidade de seus livros e outros produtos. “Tem livros que são raros, aparecem livros autografados de vários autores, daí vendemos na internet pois vai pra mão de um colecionador que irá guardá-lo, preservá-lo ou expor o mesmo. Meu Pé de Laranja Lima foi um livro que vendi dezenas, todos autografados pelo autor José Mauro de Vasconcelos, porque ele frequentava muito Jundiaí, por ter uma namorada aqui!” Ele vende livros até pra Europa! Espanha, França, Inglaterra…

Caça antiguidades

Para conseguir todo esse acervo é necessária muita procura! “Quando a gente compra, compramos o acervo inteiro, às vezes você vai em feirinhas, compra um livro e tá autografado, você sai garimpando… É como uma pedra bruta, tem um milhão de pedras, mas o cara sabe a pedra certinha onde vai achar ouro, a gente olha tudo direitinho, analisamos o material antes de comprar, se está em bom estado, se tá riscado, grifado, se tem cupim, você tem que analisar um a um, é bem trabalhoso. Já no Sebo é o leitor quem garimpa, você deixa tudo estruturado, e aqueles que gostam muito de livros cuidam, fazem biblioteca! Por exemplo, o cara que compra livros de filosofia, sociologia, eu já sei que ele não vai trocar aquele livro, ele tá fazendo biblioteca!”

Além de todos esses livros, Maurício tem um arquivo com mais de 9500 fotos antigas de Jundiaí! Ele começou essa coleção aos 8 anos de idade, “Comecei esse acervo, pois meu avô era fotografo amador e trabalhou na prefeitura, então ele tinha bastante fotos de Jundiaí! Minha geração colecionava tudo, tampinha de garrafa, embalagem de cigarro, figurinhas, chaveiros, moeda, selo, cédula, carta, o que você imaginar, e eu colecionava fotos, porque meu avô era um bom narrador! Ele contava as histórias e eu já gostava, e eu passei a guardar as fotos, por isso criei a página para disseminar essas fotos de Jundiaí, pois em exposições eu atingia poucas pessoas, mas às vezes uma foto que eu posto é vista por mais de 100 mil pessoas! Eu também não cobro um tostão para o uso das mesmas, tem agências que utilizam as fotos, jornais, portais, as TVs, eu cedo gratuitamente porque senão perde o sentido de quando eu era criança, já que a finalidade é preservar a história de Jundiaí.”

Leia também: Da pequena coleção à preservação: a paixão do professor Maurício por Jundiaí e sua gente

Ele tem fotos desde 1864 até os dias de hoje! “Eu ainda tenho muitas fotos físicas, mas muitas das fotos estou digitalizando e doando para o museu da cidade, pois a gente morre e a foto fica, então estou doando para as próximas gerações. Hoje não me considero mais um colecionador e sim um historiador, que conta a história de Jundiaí através de imagens. Conheço quase tudo da cidade e todas as histórias de minhas fotos, você pode mostrar qualquer uma pra mim e eu te conto a história! O maior intuito com as fotos é aguçar o amor pela cidade, temos que entender que a cidade não é do prefeito, do governador, vereador, a cidade é minha, sua, aguçar o amor do cidadão de Jundiaí, cuidar da cidade! Eu dizia quando era pequeno que eu tenho tanto amor por Jundiaí que não cabe nem no meu peito, meu amor pela cidade é uma coisa que eu não consigo explicar, é muito o querer bem, gostar da população, fazer tudo que você pode fazer de bom pela população sem precisar ter um mandato público, porque o cidadão tem esse poder!

Ele também faz palestras, sobre primeiro emprego, fotografia, “Onde me chamar eu vou! Gosto sempre de tá divulgando esse trabalho nas escolas, mostrando pra criançada! Com os meus alunos eu faço um passeio, com um roteiro e fazemos o antes e depois das fotos, vamos vendo uma a uma e vou explicando o que era, tem muito aluno que nunca pisou no centro da cidade, só conhece o Shopping, sabe das lojas mas não conhece o Solar do Barão, não sabe que o prédio tem mais de 250 anos! Às vezes eu recebo uma foto e identifico o lugar na hora, pela roupa, pelo carro, eu consigo uma data muito aproximada, quando eu tenho dúvida eu mando pro pessoal do Clube do Carro Antigo e pergunto o ano do carro, e eles falam o ano, modelo, etc.” Ele tem fotos de toda a cidade, da Vila Rio Branco, Catedral, Festa da Uva, Centro da Cidade, Vila Arens, Bolão, Anhangabaú, Paulista, pessoas folclóricas da cidade, tudo separadinho e organizado em álbuns no Facebook.

Cheios de história

As histórias dos livros vão além das que são contadas nos mesmos, “No meio de livros vem muita coisa, outro dia veio telegrama que um namorado havia mandado pra namorada, às vezes aparece cartinhas de filhos pras mães, teve uma declaração de amor de uma criança de 8 anos datado de 1937! Tem livros que trazem uma energia muito forte! Você acha fotos, dinheiro antigo, passagem de ônibus, bilhete de teatro, recibos, tem livros com 10 tipos de flores! Os livros carregam uma história!”

(Foto: Prof. Maurício Ferreira/ Sebo Jundiaí/ Reprodução)

Ele também está planejando montar um museu de brinquedos, pois tem vários que colecionava quando mais jovem, inclusive já fez exposição com alguns deles no museu Solar do Barão, mas ainda está trabalhando nesse projeto. Esse museu será ligado ao Sebo Jundiaí. Vamos aguardar pra ver essa novidade da cidade, que será um dos poucos museus de brinquedos do Brasil!

A mensagem que ele deixou é que “A maior importância de você adquirir um livro de um sebo é a questão da ecologia. Para produzir um livro você gasta quase 5 mil litros de água, temos que repensar nossos consumos, reaproveitar, reutilizar… é muito legal um livro de R$ 70,00 você pagar R$ 20,00, é ótimo, ainda mais nos dias de hoje com essa crise toda, mas o apelo ambiental é muito forte, essa coisa de você deixar de consumir, diminuir a produção, deixar de poluir, eu acho bacana, por isso vale a pena visitar um sebo!”


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