Boas atitudes a gente nunca se cansa de ver, não é mesmo? E conhecer a história por trás de quem as realiza, é melhor ainda! Ainda mais se for de alguém que, literalmente, veste a camisa de Jundiaí, né não? 😉

Com certeza você já deve ter visto o Jayme Lima, mais conhecido como ‘Jayme do Farol’, quietinho, com seu banquinho ali no pontilhão da Avenida Nove de Julho, ou no espaço com paredes brancas bem em frente ao JundiaíShopping, revitalizando faróis de carros.

Depois de passar pela Rua XV de Novembro, por um posto de combustível abandonado e o Pontilhão da Av. Nove de Julho, o ‘Jayme do Farol’ atende bem em frente ao JundiaíShooping. (Foto: Mateus Storti/Solutudo)

Talvez o que você não saiba da história desse jundiaiense de coração, que acorda todos os dias cedinho para trabalhar e fazer a diferença com suas campanhas de arrecadação, é que um dia foi ele quem precisou do alimento doado pelas pessoas, enquanto foi morador das ruas de São Paulo.

Pra rua

Jayme desde criança trabalhava, e aos 12 anos já tinha seu próprio negócio. Aos 17 anos montou a primeira oficina, na cidade de Caieiras. Nessa época, ele com o polimento de carros feito à mão, conseguiu montar suas 2 ou 3 oficinas na cidade.

A vida estava próspera, mas o peso dos negócios o fez tomar uma radical decisão: vender tudo aquilo, pegar seus cartões de crédito e mais algumas poucas coisas e fazer o que muita gente tem vontade: jogar tudo pro alto. Jayme conta que hoje, ao ver e viver as duras consequências daquele seu ato, ele se arrepende:

Rodei o país, conheci mais de 23 estados, mais de 100 cidades. Depois de um tempo comecei a ficar em beira de rodovia passando frio, fome, e quando voltei pra São Paulo foi que conheci o frio, a dificuldade da rua. Depois dessa situação toda, ainda com vergonha de voltar pra casa, fiquei na rua mesmo. O tempo foi passando e fiquei 10 anos.”

O rapaz conta que nessa época ele ganhou um celular e começou a compartilhar um pouco de sua vida nas redes sociais: tirava fotos pegando comida, fazia lives na Praça da Sé, mostrava as crianças que dormiam na rua. O jornalista das ruas lembra que em questão de poucos dias sua página já cumulava cerca de 3 mil seguidores.

Das ruas ao próprio negócio. (Foto: Arquivo Pessoal e Tribuna de Jundiaí/Reprodução

E foi justamente esse trabalho de contar o dia a dia nas ruas que o levou ao recomeço em Jundiaí. Ou melhor, na tentativa de um recomeço.

O recomeço em Jundiaí

Jayme conheceu uma seguidora aqui da cidade, que lhe ajudou por um tempo em sua primeira tentativa de recomeçar. “Vim em 2017, e um tempo depois retornei para São Paulo porque não deu certo”

Em São Paulo, uma noite na rua, acordei assustado, chorando. Pensei que era alguém me cutucando pra me acordar, mas na realidade era um rato. Eram 3 horas da manhã quando eu sai com meu pedaço de papelão e meu cobertor debaixo do braço e parei em cima da ponte ali da Alcântara Machado. Foi ali que pedi pra Deus que Ele me desse uma ideia, uma luz, porque não aguentava mais ficar naquela situação.

Dali algum tempo, Jayme foi morar em um abrigo em que via via todo dia um rapaz chegando bem arrumado e mostrando dinheiro. Enquanto os outros abrigados brincavam perguntando onde ele havia roubado, Jayme fez diferente: perguntou onde estava trabalhando. “Ele resistiu, mas depois de uns dois dias ele me contou que estava fazendo limpeza de faróis, e que dava pra tirar uma graninha”, conta.

Aquilo era a luz que Jayme precisava para seu caminho ser iluminado: ele já trabalhava com polimento automotivo desde os 12 anos de idade. “Sempre tive experiência nessa área. Porém, o que não sabia, era que eu poderia me manter só com o farol”.

E, como que marcado em vermelho em um calendário, Jayme tem na ponta da língua uma data a destacar: 25 de novembro de 2018. “Eu retornei pra cá nessa data e estou até hoje. Tinha feito um bico e, com 50 reais, comprei o material necessário para começar.”

Jayme retornou não apenas com uma mochila cheia de materiais para o trabalho de polimento de faróis, mas também com uma boa dose de força de vontade.

A rua te deixa impotente. Você pode ser um juiz, um empreendedor, qualquer coisa. Caiu na rua, você se torna um cara impotente. Se você não tiver um empurrão, você não sai. Eu pedi uma direção para Deus. E eu, um cara impotente, que não tinha forças pra sair da sarjeta, fui administrando o dinheiro de pouquinho em pouquinho e hoje não me falta um centavo pra honrar com meus compromissos, e ainda vou pra cima e abraço as causas de gente que precisa.

Em questão de poucas horas o serviço é feito a um valor que ajuda tanto o bolso do motorista como o próprio Jayme. (Foto: Mateus Storti/Solutudo)

Cada farol uma história

Jayme começou em Jundiaí revitalizando faróis na Rua XV de Novembro, e depois de começar a divulgar o seu trabalho nas redes sociais, passou a fazer seu serviço em um posto abandonado na Avenida União dos Ferroviários.

Pouco tempo depois foi realizar seus serviços no Pontilhão da Nove, onde seu trabalho e comprometimento com causas sociais foram sendo cada vez mais conhecidos pelos jundiaienses: da arrecadação de litros e litros de leite para entidades de Jundiaí, até se engajando com causas, como a do menino Enzo. “Arrecadei 800 reais de uma vez, e também assinei um cheque pessoal meu. Conclusão: foram mais de 1000 reais nessa causa”, lembra.

Jayme muitas vezes aceita caixinhas de leite como pagamento por seu trabalho. (Foto: Jayme do Farol/Reprodução)

Não para!

E mesmo nesses tempos de quarentena, com muitos negócios estando fechados temporariamente, a solidariedade do Jayme sempre está viva e atuante.

No último dia 29 de março, um domingo, de máscara e tomando todas as precauções necessárias, Jayme estava lá, com seu banquinho e tudo o mais necessário para fazer o bem: panos, fitas, materiais de polimento e, sobretudo, boa vontade.

Tomando os cuidados necessários para esse tempo que passamos, Jayme mantém-se firme na missão de ajudar quem mais precisa. (Foto: Jayme do Farol/Reprodução)

Foram arrecadados 50 litros de leite para a campanha de arrecadação de alimentos da 1ª Cia. do 48º Batalhão de Polícia Militar do Interior para a população carente e que não tenha renda fixa neste período de quarentena em Jundiaí.

Hoje, com mais de 3 mil faróis revitalizados e em novo endereço, ainda na Avenida Nove de Julho, Jayme tem sua história e dedicação como inspiração para muita gente:

Eu ando com uma camisa escrita “Eu amo Jundiaí”, e se uma pessoa me vê tomando refrigerante e jogando a latinha na rua, ela vai pensar que não amo coisa nenhuma, que estou na internet só pra se achar. Eu sou o menor entre todos aqui de Jundiaí, mas hoje eu já sei que tenho a responsabilidade de dar exemplo, porque eu querendo ou não as pessoas se inspiram em mim. E isso tem me ajudado a ser melhor, tem me colocado cada vez mais à disposição.


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