Foi amor à primeira vista. No distante ano de 1902, a pacata Botucatu juntou-se nas imediações da Rua Amando de Barros, onde funcionava o antigo velódromo (atual Praça Emílio Peduti), para acompanhar maravilhada a chegada de uma grande novidade: a primeira exibição cinematográfica de sua história.

O local, onde por anos funcionou a agência da Caixa Econômica Estadual, pode ser considerado o primeiro capítulo de uma grande história de amor entre a cidade dos bons ares e a chamada Sétima Arte. Depois disso, inúmeros fatos e personagens contribuíram para fazer de Botucatu a “terra do cinema”.

Essa história, construída há mais de 100 anos, agora vai virar livro. A ideia surgiu a partir de apontamentos feitos à mão, fotos e documentos reunidos em pastas pelo historiador e ex-secretário de Turismo, Luiz Roberto Coelho Gomes, o Zulo.

Ele, que quando garoto ajudava na limpeza do Cine Vitória para entrar de graça nas matinês de domingo, considerava importante registrar os principais acontecimentos, a influência da indústria do cinema e sua contribuição para o desenvolvimento da cidade.

Zulo deu o pontapé no projeto do livro sobre a história do cinema em Botucatu
Foto: Carlos Pessoa

MÃOS À OBRA

O trabalho ganhou corpo com a montagem de um time de peso. O primeiro reforço foi do historiador João Carlos Figueiroa, que assumiu a coordenação dos trabalhos. A jornalista Adriana Donini foi contratada para contribuir nas entrevistas e elaboração do texto. E para financiar essa etapa do trabalho, conseguiram o apoio de duas figuras que têm suas vidas ligadas ao cinema: os empreendedores Fúlvio Chiaradia e Antonio Cecílio Júnior.

O historiador João Figueiroa coordena os trabalhos do livro
Foto: arquivo pessoal
Antonio Cecílio Júnior é um dos apoiadores do projeto
Foto: arquivo pessoal

A maior parte do material que integrará a obra já foi coletada. Inclui recortes de jornais, documentos, fotografias e relatos de personagens que de alguma maneira estão ligados à história do cinema na cidade. O livro trará informações sobre a criação do cinema no mundo, seu processo de industrialização e a chegada ao Brasil. Mas terá como foco principal os acontecimentos e personagens locais. “Ao longo do tempo, tanto no ramo de exibição quanto no de distribuição de filmes, Botucatu tornou-se uma referência e empregou muita gente”, destaca Zulo.

Para se ter uma ideia, na própria cidade haviam fabricantes de projetores e de poltronas para cinema. O livro fará muita gente voltar no tempo ao recordar as sessões de verdadeiros templos da arte como Cine Casino, Paratodos, Nelli, Vila Rica. Outros que foram quase esquecidos como Cine Ideal, Cine Bijou e Cine Glória. Outros míticos, como o Espéria, consumido por um incêndio em 1951.

O prédio do Cine Teatro Espéria abrigou salas de projeção por décadas
Foto: Museu Histórico e Pedagógico Francisco Blasi

Também merecerá destaque o pioneirismo, o arrojo e a visão empreendedora de homens como Pedro Chiaradia, Emilio Peduti, Pedro Eichemberg, Azor Araújo e João Passos, que deram os primeiros passos e construíram grandes empresas voltadas para exibição e distribuição de filmes Brasil afora. Até chegar aos dias atuais, quando as novas gerações das famílias Araújo e Passos mantém duas das principais empresas exibidoras do país.

Inaugurado em 1937, o Cine Paratodos deu lugar ao Teatro Municipal
Foto: Museu Histórico e Pedagógico Francisco Blasi
Inauguração do Cine Casino, em 1º de janeiro de 1914
Museu Histórico e Pedagógico Francisco Blasi

“Nossa localização geográfica e a força política do Peduti fizeram com que praticamente todas as distribuidoras de filmes nacionais e estrangeiras abrissem agências em Botucatu. Entre os anos de 1930 e 1970 a cidade viveu o apogeu”, frisa Zulo.

Peduti ganhou eleição e construiu Cine Vitória na Vila dos Lavradores
Foto: Museu Histórico e Pedagógico Francisco Blasi

O resgate dessa história motivou Antonio Cecílio Júnior, o Juninho da Cine Vídeo, a contribuir com a obra. “Desde os 14 anos trabalhei no ramo da cinematografia. Depois tive locadora por 35 anos. Um livro como esse é o resgate da minha própria história. O trabalho está bastante adiantado e merece ser publicado”, diz.

As últimas entrevistas estão programadas para acontecer nas próximas semanas. Depois será feito o trabalho de organização de texto e fotos para diagramação e a busca de patrocínio para publicação. A previsão é que o livro seja lançado em 2020.


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2 COMENTÁRIOS

  1. Resgatar a história do cinema é respeitar, reconhecer e reviver o passado para melhor compreender o presente. Recontar é viver, buscar o sentido e o significado. Orgulhosamente parabenizo os senhores Zulo, Figueiroa, Adriana, Fúlvio, Juninho e demais colaboradores, pela iniciativa do projeto do livro voltado à história do cinema, ao qual se atribui à tão utilizada expressão como setima arte, pelo poeta italiano Canudo Ricciotto. Antonio Carlos Nordi.

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