Você conhece o Professor Árife Amaral Melo? Ele é nascido e criado em Ourinhos, morou em outras cidades, mas seu coração sempre foi da terra do povo de coração de ouro e acabou retornando para o município.

Em Ourinhos, ele casou e teve duas filhas. É sociólogo e professor que já lecionou em algumas escolas estaduais e particulares da região, além de universidade privada e, atualmente, é professor no Instituto Federal do Paraná (IFPR) em Jacarezinho.

Árife Amaral Melo (Foto: arquivo pessoal)

Estudos

A sua formação é em Ciências Sociais com foco em sociologia, mesmo que o seu sonho, desde a época do ensino médio, sempre foi a psicologia.

“Em razão de alguns fatores, ingressei no curso de Ciências Sociais na UNESP de Marília, curso pelo qual me apaixonei e que me deu a profissão que me faz ser quem sou hoje: professor. Além da atividade docente, também gosto de trabalhar com a pesquisa. Por isso, tenho um grupo de pesquisas no campus Jacarezinho que se chama GEMS (Grupo de Estudos sobre Morte e Sociedade), no qual desenvolvo minhas pesquisas da área da morte com estudantes de ensino médio”, explica Árife.

Por ter escolhido a carreira de professor, Árife fez doutorado. Um título muito importante na área acadêmica, sendo conquistado pela produção de uma pesquisa profunda sobre o tema que a pessoa realmente acredita que há mais para estudar e refletir. Portanto, o professor escolheu estudar mais sobre o Cemitério Municipal de Ourinhos.

Cemitério

Tudo começou com um trabalho de campo com estudantes do ensino médio do IFPR. Era um grupo que estudava sobre o cinema e decidiram estudar a morte no cinema. A ideia foi instantânea de ir a campo ao cemitério de Jacarezinho com os alunos, e concluiu que estudar o local poderia surgir diversos questionamentos que não caberiam mais para um simples grupo de estudos.

“Então, por conta própria, resolvi visitar vários cemitérios, incluindo o de Ourinhos e vi que realmente poderia surgir dali uma pesquisa digna de uma tese de doutorado. Qual foi o foco da minha pesquisa? Se você observar um cemitério, vai poder perceber que ali não é somente um local de se enterrar os mortos pura e simplesmente; é um espaço de memórias individuais e coletivas, a história de um lugar está registrada em um cemitério”, contou.

O professor ainda afirma que é possível perceber, no cemitério, qual era a família mais poderosa da cidade, se a maior parte da população era católica, se tinha influência de imigrantes, entre outras questões. Tudo isso pela forma que os túmulos e mausoléus foram construídos, as estátuas e simbologias utilizadas, o tipo de material que está no local e muitos outros itens.

“A lista de similaridades entre a forma como os vivos se organiza e como eles organizam seus mortos são bem grandes. E isso tem também uma ligação direta sobre a diferença de como lidamos com nossos mortos, se comparada à forma como nossos antepassados lidavam com esse tema”, sintetiza o professor.

O doutorado

O estudo em si, foi para identificar como lidamos com a morte no presente e como eram as atitudes dos antepassados. Até porque, antigamente, o assunto morte não era um tabu e a religiosidade estava mais presente na vida das pessoas.

“Durante a pesquisa, o que me chamou atenção, principalmente no Cemitério Municipal de Ourinhos, é que o nosso cemitério é um retrato fiel de como os espaços cemiteriais atuais possuem uma tendência cada vez maior de serem mais racionalizados, com poucas referências ao sentimento de perda, ao luto, à religiosidade etc. Ao caminhar pelo local, podemos ver que o volume de túmulos “mais enfeitados” (aqueles com mais referências simbólicas, tais como cruzes, estátuas, pinturas etc.) são cada vez mais raros se comparados aos túmulos do presente, que se resumem basicamente a uma construção prática feita com materiais comuns da construção civil. E isso, silenciosamente, diz muita coisa. Percebe-se que além do aspecto prático, o fator econômico também interfere”, alega Árife.

Isto é, o objetivo central da pesquisa foi para mostrar e identificar o cemitério como um espaço de ponto de partida para nos observarmos em relação à morte, propondo uma ressignificação social.

Ourinhenses

A tese do doutorado é recente, Árife defendeu em 2019. E, com toda certeza, a primeira reação de quem fica sabendo é de estranheza, justamente pela morte ser um assunto tratado, muitas vezes, como tabu ou nem se fala mais entre as famílias. Mas quando o professor começa a explicar mais sobre a pesquisa a conversa flui naturalmente, surgindo novas ideias e questionamentos.

“A ideia é que, do ponto de vista prático, as pessoas valorizem mais esse espaço, pois não são apenas as memórias de uma família, mas de uma cidade inteira. O cemitério de uma cidade é também um museu a céu aberto. E ‘um povo que não conhece sua história, está fadado a repeti-la’, já diria Burke”, finaliza.

Futuro

O futuro é incerto e a intenção é de continuar a pesquisa de forma mais concreta com alguma parceria. E o sentimento sobre a tese do cemitério ourinhense é um só:

“É um trabalho pelo qual tenho o maior prazer em realizar, porque parece que nunca terá fim: cada vez que levanto uma questão, surgem mais duas, três… Me desperta um sentimento de satisfação muito grande”, relata Árife.

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Uma pesquisa inusitada, né? Conhece alguém com uma curiosidade poderosa como essa? Conte para nós!


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