Em 1953, foi criado o Lar Santo Antônio em Ourinhos. Era um local que abrigava muitas crianças e adolescentes. A sua localização era onde é hoje o Centro POP, Rua Celestino Lopes Bahia, 2042, Vila São Luiz. Em 2013, foi noticiado o fechamento do lar por denúncias de agressão e verificação se houve mal uso do dinheiro público. Com isso, a Prefeitura fechou o lar e instalou o centro.

Para muitos que já viveram ali, tudo não se passa de um boato que acabou com o abrigo de muitos adolescentes. É um local que Daniel e Yagor lembram com muito carinho e contaram tudo sobre as suas vidas para a Solutudo Ourinhos.

Daniel dos Santos Oliveira

Daniel, 29, desenhista mecânico e web designer, se considera uma pessoa que busca o melhor e o bem-estar diariamente. Gosta de andar de bicicleta, de caminhar, fazer trilhas, ir ao cinema, tocar violão, cantar e muitos outros hobbies que acalmam o jovem com marcas do passado.

Foto: Facebook Daniel

É caseiro, gosta de trabalhar, procurar estar sempre estudando, é alguém que passou por bocados na vida, tem o coração bom, já fez trabalhos voluntários, é carismático, extrovertido, amoroso e não tem muitos amigos.

O orfanato

O rapaz recorda que entrou no lar em 1996 com quatro anos e seu irmão com cinco anos. Sua mãe abandonou os muito novinhos, Daniel com seis meses de vida e o irmão com um ano. Os primeiros cuidados vieram do pai, mas a vida era turbulenta demais e ele decidiu que os meninos iriam para o lar. A intenção do pai era que essa seria a melhor atitude para os filhos terem um futuro diferente da origem.

Os meninos tiveram padrinhos que levavam as crianças aos finais de semana para passear e quase foram adotados. A adoção não deu certo porque o pai os visitava em todos os finais de semana e o vínculo de pai e filho era muito forte. Acredita que esta seja a maior razão para a adoção não ter sido efetuada, e caso tivesse dado certo, Daniel e o irmão estaria residindo fora do Brasil atualmente.

Sobre as lembranças do local, a resposta foi certeira. “As melhores obviamente. Lugar excelente, tínhamos de tudo. E éramos bem cuidados. Só lembranças boas que até hoje em meus sonhos é lá que vou sempre. É sentimento de amor, acolhimento e de gratidão por tudo que nos foi proporcionado lá dentro”, fala Daniel.

A mãe

Em 2001, a mãe de Daniel foi até o lar para ver os filhos. Na época, o jovem tinha nove anos e chorou ao abraçar aquela mulher. A partir daquele dia a mãe sempre ia ao orfanato. A assistente social considerou que aquela pessoa passava uma boa imagem materna para as crianças. Passou o tempo e ela conseguiu a guarda novamente, mesmo com o registro de abandonado, Daniel e o irmão foram morar em Jacarezinho, no Paraná, em uma favelinha com mais quatro irmãos em uma casa com uma cozinha e dois quartos. Ainda nasceu mais uma criança neste período.

Fora os anos de mais sofrimento de Daniel. “O amor que ela dava para os outros filhos não era igual para nós que não tivemos convivência com ela. No quarto dela tinha uma televisão, ela deixava os quatro filhos assistir e eu e meu irmão não, dava tudo do bom e melhor para eles e nós nada. Nós dois tínhamos que fazer faxina e lavar a casa. Fazia eu e ele buscarmos lenha quase todos os dias para esquentar água para tomar banho de canequinha, passamos muita fome”, relata.

Daniel até fugiu duas vezes de casa querendo voltar para o orfanato, até que o Conselho Tutelar da cidade, depois de três anos, “devolveram” as crianças para o lar.

“Quando estávamos morando no orfanato, todos os meninos sempre sonham em voltar a morar com a família ou sair de lá adotado. Mas quando sai você quer voltar, pois, a vida aqui fora não é fácil, ainda mais quando você é independente não porque quer e sim por não ter outra opção”, admite o jovem.

Depois de atingir a maioridade

Aos 18 anos, o jovem precisa ser desligado do lar. Daniel já trabalhava e decidiu que iria morar sozinho, para ele não fazia sentido ir morar com alguma família. Resolveu alugar uma casa próximo ao lar para vivenciar um processo lento de desmame do local. Sempre que podia, estava lá no lar visitando e ajudando no que era em seu alcance.

A vida não são flores e iremos enfrentar espinhos, foi assim com o rapaz. Caiu, levantou-se e aprendeu. Todo dia é dia de luta, aprendizado e o amadurecimento chegou na vida de Daniel.

Toda sua trajetória

No presente, a certeza do jovem é ser uma pessoa centrada na vida, que sabe o que quer e onde deve ir. É preparado para qualquer tempo ruim. E a lição de vida foi uma só: devemos agradecer por tudo que temos, devemos valorizar cada segundo do dia, é preciso sair da zona de conforto, é preciso estudar, é preciso ser curioso e é preciso enfrentar os medos.

“Cada coisa tem seu valor, e nós humanos temos um valor diferente em cada lugar que estivermos. Então, não guarde magoas, não se prenda ao passado, VIVA o agora”, conclui Daniel.

E o futuro? É cheio de esperança para abrir sua empresa e criar oportunidades para as pessoas que não tiveram alguma chance na vida para se tornar um alguém melhor.


Yagor Brandão e Silva

Yagor, 26, auxiliar de caldeireiro, é uma pessoa humilde e muito feliz com a vida. Começou a morar no lar em 2010, a razão foi pela dificuldade financeira de sua família com cinco filhos. Garante que a época no orfanato foi uma das melhores da vida, nunca deixaram faltar nada-lhe e era centrado nos estudos. Tirava de letra como ele mesmo afirma. Sendo assim, seus sentimentos pelo lar são de muito carinho e gratidão por conquistar uma família.

Yagor também não foi adotado. “Uma família de Jacarezinho queria adotar nós cinco, mas depois resolveu querer só duas crianças e não queríamos nos separar. Então, o juiz não autorizou a adoção e eu fiquei no lar até completar os 18 anos”, conta o jovem.

Foto: Facebook Yagor

Na maioridade saiu do lar e foi morar com um casal de tios, Janaina e Fabiano. O tio foi quem ajudou ele a conquistar empregos, sempre se manteve presente na vida do rapaz e fazia o possível e o impossível para ele ter uma vida melhor.

E sua família biológica voltou a ter contato com o rapaz há um ano, decidiram passar uma borracha por cima de tudo e estão retomando o amor e carinho de uma família.

A vida fora do lar

Chegou o momento que o amor entrou no coração de Yagor e ele não resistiu. Atualmente, é casado com Rafaela Ferreira e afirma ser outra pessoa depois que iniciou o relacionamento com a esposa.

“Eu tenho de tudo, não passo vontade de nada graças a Deus. Tenho dois filhos homens, o João Emanuel e o Pedro Lucas. Sou muito feliz e grato com tudo que conquistei”, diz Yagor.

Foto: Facebook Yagor

Futuro

O que ficou de lição é nunca pisar em ninguém, o melhor caminho é ser uma pessoa honesta e humilde. E para o futuro, a meta é dar a chance para os filhos terem uma vida diferente do pai.


Duas histórias mais que emocionantes! Qual foi a sua emoção ao ler a reportagem? Conte para nós!


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1 COMENTÁRIO

  1. Pra mim foi a melhor experiência de vida o que sou hj aprendi tudo no lar entrei em 1986 e sai em 2001… hj é só lembranças e saudades.

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