“É como se você fosse uma pessoa da cidade mesmo, mas a visse como uma coisa nova todos os dias”. É dessa forma que o sociólogo Marcelo Sampaio descreve a sua relação com Marília, traduzida por meio das fotografias.

A paixão pela arte veio por meio de uma revista chamada Íris Foto, veiculada nos anos 70 e 80. “Eu estava namorando uma fotógrafa e ela me apresentou a revista, que já foi descontinuada. […] Eu me encantava com as fotos e com a possibilidade que a fotografia poderia dar para a comunicação”, conta.

Primeira fotografia de Marcelo. 1997: Praça São Miguel. (Foto: Arquivo Pessoal)

A partir daí, resolveu aprender e não parou mais. Segundo Marcelo, seu principal meio de absorver as informações era através dos livros.

“Acho que aprendi fotografia de um modo mais alternativo, porque, eu nunca ajudei fotógrafo, nunca trabalhei em balcão de loja de fotografia… Todo o meu interesse veio por causa dessas fotografias e dessas revistas”, lembra.

Foto: Júlia Martins

Dentre os milhares de livros espalhados nas estantes de casa, um deles se destaca. Na época, Marcelo foi até a casa de um amigo e, ao folhear “As Melhores Fotos”, do fotógrafo Cristiano Mascaro, se pegou preso na página de número nove.

“Aquilo me encantou e eu pensei ‘nossa, dá pra fazer isso com fotografia?’. Era uma forma de crítica, uma forma de arte, uma forma de comunicação, de interpretação. O poder que aquela imagem teve e o jeito que ela mexeu comigo… Aí não teve mais jeito, eu tive que aprender”, relata.

1999: Praça em Marília. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Pendurei a câmera no pescoço e fui andar pela cidade”

Primeiro aprendeu a revelar fotos em preto e branco. Na época, junto da namorada, montou um estúdio no quintal da casa onde morava. A partir daí, conseguiu comprar sua primeira câmera. “Saí pela cidade e comecei a registrar essa coisa da paisagem urbana, dos prédios, das pessoas”, lembra.

E foi então que a infância veio à tona. Em meio ao prazer dado pela fotografia, Marcelo se lembrou de quando andava pelas ruas a pé ou de ônibus.

“Quando eu era moleque, ficava olhando as pessoas andando na rua, os prédios, e começava a inventar histórias. E, quando eu comecei a fotografar, eu reencontrei isso. Comecei a olhar a paisagem e, na fotografia, comecei a não mostrar apenas Marília, mas sim a minha Marília”, aponta.

2003: Associação dos Alfaiates. (Foto: Arquivo Pessoal)

E, com isso, começou a experimentar com a imaginação, trazendo ângulos, enquadramentos e composições diferentes a cada vez que disparava o botão. “Eu pensava em uma cidade que pudesse existir só pra mim”, diz.

Isso fez com que o sociólogo desenvolvesse seu próprio estilo de capturar a beleza da cidade. “A minha fotografia sempre tem alguma relação com a solidão na cidade, o trabalho e a passagem do tempo. […] Marília tem muita história pra contar”, acrescenta.

A relação com os livros

Marcelo descreve sua relação com a fotografia como resultado do seu amor pelos livros. “Foi por meio deles que eu aprendi e comecei a apreciar a fotografia”, conta.

A literatura lhe trouxe inspiração e o levou a conhecer referências que iriam mudar a forma como ele via o mundo através das lentes.

Marcelo coleciona diversos livros sobre fotografia. (Foto: Júlia Martins)

“Conheci o Cartier-Bresson, Robert Frank… Todos esses fotógrafos humanistas franceses. Tudo por livro. E eu me encantei com a Teoria do Momento Decisivo, do Bresson. Nela, ele diz que existe um momento em que a paisagem posa pra você”, diz.

Apoiado no trabalho de grandes mestres, Marcelo pôde afinar o próprio olhar e aperfeiçoar suas técnicas de fotografia.

“Fotógrafo não se faz com máquina. Fotógrafo se faz com a construção do olhar. A máquina é o que vai dar recursos pra ele compartilhar esse olhar já construído”, reforça.

2015: Marília. (Foto: Arquivo Pessoal)

O digital e a interatividade

O afeto pela máquina analógica, pelos filmes em preto e branco em 35mm, se faz presente até hoje. No entanto, Marcelo viu a necessidade de migrar seu trabalho para as plataformas digitais.

“Eu fotografei com filme muito tempo, depois eu escaneava o filme para poder passar minhas fotos para o digital. Então, demorou um pouco”, conta.

A preocupação do sociólogo era em como entrar no universo digital sem perder a essência do seu trabalho. Mas, ao longo do tempo, percebeu que o meio impresso estava perdendo seu poder de comunicação.

2017: Arredores. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Fotografia você não faz pra guardar no fundo da gaveta. Fotografia você faz pra convidar as pessoas a pensar, a ver e a se sensibilizar”, enfatiza.

Passou por diversas mídias até encontrar a que mais se encaixava com sua forma de fazer arte. Foi daí que surgiu o projeto “Luzes de Marília”, um perfil no Instagram onde Marcelo expõe seus ensaios e fotografias da cidade.

2014: Rua Nove de Julho. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu queria mostrar uma Marília diferente, que não é rodoviária, que não é só a Sampaio Vidal”, conta. E foi essa característica e essa forma de pensar que atraiu cada vez mais seguidores e apreciadores.

“Eu fotografo a paisagem da cidade há mais de 15 anos. É uma relação que eu tenho com a vida e com a cidade em que eu vivo. Mas o mais legal não é vender, nem nada do tipo, é quando as pessoas vêem as minhas fotos e podem conversar sobre elas”, explica.

A interação que as fotografias proporcionam fez com que Marcelo mantesse o projeto vivo dentro das redes sociais. No entanto, não deixou de realizar exposições físicas. E também continua com suas andanças pela cidade com uma câmera no pescoço.

“Pra mim, a fotografia é meio que um lugar. É um ponto de encontro entre duas pessoas, que pode alinhavar perspectivas, histórias e sentimentos”, finaliza.

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Marília/SP #arredoresprojeto

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