Eu daria tudo que eu tivesse

Pra voltar aos dias de criança

Eu não sei pra quê que a gente cresce

Se não sai da gente essa lembrança”.

Essa é a primeira estrofe de “Meus Tempos de Criança”, clássico da música brasileira imortalizado na voz de Ataulfo Alves. É a música preferida de José Airton Amorim da Silva, mais conhecido como Zé Airton.

As lembranças do passado citadas na canção povoam a mente deste bancário aposentado de 79 anos, que também foi uma das estrelas do futebol botucatuense. Quem teve a oportunidade de vê-lo jogar o define como um meia esquerda habilidoso, de passes precisos e lançamentos milimétricos. Além de exímio batedor de faltas.

A paixão pela bola o acompanha desde sempre. Sua mãe, a saudosa professora do pré-primário da Escola Normal, Nazaré Silva, costumava dizer que ele já chutava forte dentro do seu ventre. Nascido em Botucatu, no dia 29 de janeiro de 1941, Zé Airton é o primeiro dos quatro filhos (uma irmã faleceu) de dona Nazaré com o ferroviário José Silva, popularmente conhecido como Zico da Misericórdia.

Deu os primeiros dribles pertinho de casa, em um campinho de terra batida onde hoje está o estacionamento da Igreja Nossa Senhora de Lourdes. Uma trave era pintada no muro e a outra feita com pedaço de madeira entre duas árvores.

“O problema é que só podia jogar quem frequentasse a igreja. Como morava ali perto, resolvi virar coroinha”, recorda.

Lá, e em outros campinhos como do Areião (onde hoje está a sede da OAB) e do Salgueiro, logo fez fama de garoto bom de bola. Daí para o infantil do Boa Vista foi um pulo.

“No amador, o Boa Vista é meu time de coração. Oficialmente foi meu primeiro. Me apeguei muito ao pessoal. Chegava da escola e ia lá pra cima jogar bola”.

A paixão pelo futebol foi alimentada nos campinhos de terra batida
(Foto: Acervo Museu Histórico e Pedagógico Francisco Blasi)

Times e craques

Aos 14 anos mudou-se sozinho para São Manuel para jogar pelo América. Foi morar em uma pensão com outros jogadores vindos de várias cidades. Logo na estreia, em um amistoso contra o time da Volkswagen, de São Bernardo, um lance para ficar na memória.

Bandinha tocando, campo lotado. Padeirinho levou a bola pelo lado direito e eu acompanhei a jogada pelo meio. Fiquei livre na grande área. Ele cruzou e o goleiro saiu para abafar. A bola bateu no meu pé, subiu, encobriu o goleiro e caiu dentro da rede. Gol de placa, mas sem querer. A plateia veio abaixo. Nunca mais sai do time”.

Lá sagrou-se campeão amador do estado, disputando com equipes como Noroeste de Bauru, Piratininga e Lençoense. Também viria a atuar pela São Manuelense. Era a época do “profissionalismo marrom”, quando recebia dinheiro para jogar, mas não era registrado.

Time de alunos do Curso Técnico de Contabilidade do antigo “Colégio Arquidiocesano N.S. de Lourdes” (Colégio La Salle), em 1958. Em pé: Zico Gonçalves, Hugo Matos, Newton Colenci, Gê do Lageado, Toninho Delevedove, Pacheco, Nalli e Chiquinho. Abaixados: Eduardo Felipe, Zé Fontes, Zezo Ferraz, Zé Airton e Chico de Assis
(Foto: arquivo pessoal)

De volta a Botucatu, passou pela escola Normal e formou-se no Ginásio Diocesano (atual La Salle). Nos campos, sua estreia no time principal do Boa Vista, aos 17 anos, foi um momento especial. Depois de jogar a preliminar com o time juvenil, foi chamado pelo técnico para completar a equipe no jogo de fundo contra o Operário da Vila Aparecida, devido a ausência de um jogador. O garoto assustado foi acalmado por Juca, atacante que ele considera o melhor que viu jogar nos gramados botucatuenses.

Fiquei meio assim e o Juca me chamou de lado e falou para eu ficar tranquilo. Fui para o jogo. A bola vinha, ele matava no peito e rolava para mim. Fiz quatro gols”.

Um de seus times do coração, o Boa Vista FC. Em pé: Adolfo, Paulo, Tito Alves, Orlando Gamito, Zé Antigas e Calvino. Abaixados: Zeco Serrão, Bolinha, Otacílio Peru, Zé Airton e Flavio Pizzigatti
(Foto: arquivo pessoal)

Ao servir o Tiro de Guerra, Zé Airton formou em um time que era considerado uma verdadeira seleção da cidade, com nomes como Nivaldo Calonego, Lacirdo, Daia Miquelim, Dema Oliveira, Daniel (goleiro da AAB), Zague e Gringo.

Zé Airton e o amigo Ademar de Oliveira no time do Tiro de Guerra-123
(Foto: arquivo pessoal)

Viveu dias de glória jogando pela Associação Atlética Ferroviária, Associação Atlética Botucatuense (pela qual foi campeão amador), AC Rodoviário, Bairro Alto, entre outros times. Uma época de campos lotados e jogadores de grande talento. Zé Airton agradece a chance de ter atuado ao lado de craques como Furinho, Nivaldo Calonego, Guanxuma, Edson Quadros (Tição), Céia, Zé Ito, Renato e Nenê Guanxuma.

Vermelhinhos EC na final do Troféu bandeirantes de futebol de salão contra o BTC, em 1959. Em pé: Zé Guimarães (fisioterapeuta), João Ribeiro (técnico), Carlos Trabalhi, Adolfo, Zé Maria Leite, Joel Spadaro e Otacílio Antigas (árbitro). Abaixados: Edson, Ovídio Tonin, Zezo Ferraz e Zé Airton
(Foto: arquivo pessoal)

De terça e quinta, o estádio da Ferroviária ficava lotado de gente só para assistir os treinos coletivos entre amador e profissional. Também vivi o tempo de dérbi entre Ferroviária e Associação. Quando o jogo era na Ferroviária, na parte de cima da cidade só ficava mulher grávida e doente. Descia a torcida inteira da Botucatuense. Quando o jogo era lá em cima o Bairro esvaziava. Pura rivalidade”.

Esquadrão amador da A.A.Botucatuense, em 1960. Em pé: Zé Varoli, Chico Romanholi, Dadico, Dizão Dalaqua, Índio Tavares e Bitinha. Abaixados: Véio Guanxuma, Nivaldo Calonego, Zague, Zé Airton e Nenê Guanxuma
(Foto: arquivo pessoal)
AAB, campeã invicta do Torneio Radialista: Perfilados da esquerda para a direita: Lamil Santos (técnico), Moacir Amaral (massagista), Pedro Balalaica, Véio Guanxuma, Chico Romanholi, Índio Tavares, Flávio Sasso, Zé Airton, Zague, Dadico, Zeco Serrão, Dizão Dalaqua, Bitinha, Zé Varoli, Dua Angela, Quiabo, Flavio Delmanto, Toninho Pereira, Ari Antigas, Claudio Pereira e Zé Carlos Vieira
(Foto: arquivo pessoal)

Bancário e apaixonado

Em 1960 foi aprovado no concurso para trabalhar na Caixa Econômica Estadual. Foi o primeiro e único emprego em toda sua vida. Assumiu o posto em uma agência na cidade de Óleo, o que o levou a morar em Manduri. Lá trabalhou por longo tempo e conheceu a professora Ivone Arbex com quem viria a se casar. Ficaram juntos por 41 anos, até seu falecimento, em 2011. Tiveram quatro filhos que lhes deram cinco netos.

Não sei como fui achar essa mulher em Manduri. Minha falecida esposa foi uma pessoa maravilhosa. Como eu trabalhava fora e viajava muito, ela praticamente criou nossos filhos sozinha. Todos no bom caminho. Agradeço a Deus por vê-los bem empregados, com suas famílias e filhos. Estamos sempre juntos. Aos sábados almoçam todos aqui em casa e aos domingos saímos para almoçar fora. Vivermos unidos é uma forma de homenagear a Dona Ivone”.

Apesar da paixão pelo futebol, preferiu a segurança e a estabilidade do banco à loteria de vencer como jogador profissional. Na Caixa construiu uma carreira sólida, baseada no profissionalismo, facilidade em construir relacionamentos e disponibilidade para encarar novos desafios. Trocou de cidade várias vezes, cresceu na carreira e aposentou-se como gerente regional em Ourinhos. Ainda assim, nunca abandonou os gramados.

Zé Airton e dona Ivone foram casados por 41 anos e tiveram quatro filhos
(Foto: arquivo pessoal)

O futebol me ajudou muito na carreira de bancário. Quando era chamado para jogar por alguma equipe nas cidades onde trabalhava, eles sempre me pagavam. Isso me permitia guardar o ordenado de bancário e fazer uma boa poupança. Como tinha metas para cumprir no banco, usava os dias de jogos com campo lotado para fazer negócio. Conversava com as pessoas. Se aparecia algum fazendeiro, por exemplo, falava pra dar uma passadinha lá na agência. Sempre funcionou”.

Ao lado dos filhos

Os quatro filhos herdaram do pai a paixão pelo futebol e a habilidade com a bola nos pés. Cacau, Cabeça, Paulinho e Gu formaram no poderoso “Expressinho”, time que ficou invicto por vários jogos e vivia sendo desafiado nos campos de Botucatu. “Mas assim que perdemos o primeiro jogo o time acabou”, brinca Zé Airton.

Gu Arbex, o caçula, teve uma trajetória bem parecida a do pai. Ainda garoto chamava atenção nas escolinhas de futsal da AAB pela força, habilidade e facilidade em marcar gols. Disputou torneios importantes, colecionou troféus e conquistas. Tornou-se bancário (assim como pai) e formou sua família. Mas até hoje continua fazendo seus golzinhos…

Zé Airton confessa que seu grande sonho nem era ser jogador de futebol profissional. Queria mesmo ser professor de Educação Física. Talvez por isso, o olho atento o faça prever que dentro da família poderá nascer um craque.

O Arthur, filho do Gu de seis anos, deve dar o que falar. Ele e o irmão batem bola aqui na sala de casa, fazendo o sofá de gol. Já dá para perceber que é diferente. Gostaria de ter um neto jogador de futebol mas torço para que eles tenham a mesma sorte que tive, unindo o esporte com uma profissão, para que não venham a sofrer uma decepção no futuro”.

Time da pesada: Zé Airton ao lado dos filhos e dos netos
(Foto: arquivo pessoal)

O corintiano

Uma de suas decepções foi não ter conseguido fazer todos os filhos torcerem para seu time de coração: o Corinthians. A “ovelha desgarrada” é Cacau, também bancário, que na infância tinha simpatia pelo Palmeiras, mas depois virou torcedor do São Paulo.

Zé Airton chegou a acreditar que Deus lhe daria uma forcinha. Certa vez foi fazer auditoria em uma agência do banco no Anhangabaú, em São Paulo, que tinha como gerente um diretor do Corinthians. Dr. Nassif disse que tinha uma surpresa. Apresentou-lhe Palhinha e Wladimir, craques e campeões pelo clube em 1977 e 1979. Zé Airton ganhou uma camisa autografada de cada um deles.

Na sexta-feira, vindo para Botucatu, tinha certeza que era o momento de converter o Cacau. Na manhã seguinte, peguei a camisa do Palhinha e disse que daria de presente a ele com a condição de que virasse corintiano. Ele jogou a camisa longe. Só de raiva, dei a camisa para um corintiano morador do Bairro Alto”.

O castigo pela desobediência do filho mais velho foi em dias de clássico entre Corinthians e São Paulo assistir ao jogo na chamada geral, o sofá de canto da sala do pai, com o pescoço torto. “Se quiser ver de arquibancada, tem que virar corintiano”, sentencia.

Apaixonado pelo Corinthians, Zé Airton não conseguiu converter o filho mais velho
(Foto: Carlos Pessoa)

O colunista

No banco, não foram poucas as vezes em que Zé Airton atuou como relator de sindicâncias e auditorias. Isso o fez escrever muito. Quando se aposentou, em 1990, decidiu juntar a habilidade com as palavras, a boa memória e o rico acervo fotográfico acumulado para virar colunista esportivo.

A estreia foi no extinto jornal A Cidade, de Sandoval Nassa, com a coluna Batendo Bola. A redação ainda era dominada por máquinas de escrever. Zé levava os textos escritos à mão para serem revisados e compostos. A precisão histórica, o respeito aos craques do passado e o bom humor viraram marcas de seu trabalho.

Virou referência no assunto. Escreveu para praticamente todos os jornais e as principais revistas da cidade. Atualmente, sua coluna Matando no Peito pode ser conferida semanalmente no site Acontece Botucatu e mensalmente nas páginas do jornal Mais Botucatu.

Esse é um trabalho que preenche meu tempo e que faço com o maior prazer. Tenho um grande acervo, mas também recebo muitas fotos. Fico feliz que as pessoas acompanham e gostam daquilo que publico. Tenho todas minhas colunas guardadas em pastas. Agora estou digitalizando tudo para que esse trabalho não se perca com o tempo”.

Acervo com recortes das colunas publicadas em jornais está sendo digitalizado
(Foto: arquivo pessoal)

Caminhando para completar 80 anos bem vividos, Zé Airton diz ser uma pessoa realizada. Vive ao lado de Zinha, sua nova companheira – diz ele que um homem sozinho não é ninguém -, tem o amor e a companhia de filhos e netos e frequenta campos de futebol e grupos de amigos como o Rebola.

Meu gol de placa foi a família que formei e a carreira que construí como bancário. Sou um homem realizado”.

No Mais de Trinta, onde atuou por vários anos: Em pé: Mércio Moreira (técnico), Geraldão, Celsão, Bredão, Zé Nelo, Zucari, Marcão, Pedrinho e Osni Ribeiro. Abaixados: Renato Melo, Nilsão Giacobino, João Piquera, Márcio Lotufo, Zé Airton, Jarbas e Zé Alberto Veiga e Zezé Giacobino
(Foto: arquivo pessoal)

BATE BOLA

Time preferido: O da minha família

Time que torce: Alvinegro do Parque São Jorge

Cor preferida: preto e branca, que são as cores mais bonitas do arco-iris, segundo Vicente Matheus.

Um orgulho: minha família

Uma decepção: a perda de minha esposa

Uma saudade: dos gramados

Um craque com quem jogou: Juca, do Boa Vista

Um craque que viu jogar: Pita (Santos e São Paulo)

Música que gosta: Meus Tempos de Criança, de Ataulfo Alves

Cantor preferido: Altemar Dutra

O que é a vida: É uma sucessão de sucessos e insucessos que se sucedem sucessivamente


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3 COMENTÁRIOS

  1. Grande e fraternal amigo Zé Airton, que bela síntese de sua vida, de seus valores, todos passados para a familia maravilhosa. Que Deus lhe Dê muita saúde para poder acompanhar o desenvolvimento dessa maravilhosa prole.

  2. Maravilhoso depoimento. Grande abraço e muito prazer por ter lhe conhecido, jogado junto e socialmente, dividir o salão principal do BTC em Bailes orquestrados e Carnavais inesquecíveis. Ser amigo de seus filha e ser Professor de Educação Física da Senhora Ivone nas manhãs do BTC.
    Apreciado os temperos do seu restaurante dividindo minha existência entre minha família e a sua. Beijão Zé., que Deus continue lhe abençoando.

  3. Conheço o grande amigo e colega de trabalho, onde foi colega no Banco Nossa Caixa. Temos uma passagem juntos: estavamos em Iacanga, em nossa colonia de ferias, e ele me convidou pra fazer uma caminhada até cidade, isso as 10 horas da manhã. Ela fomos…tomamos todas e voltamos a noitinha, ja cambaliantes… Grande amigo e grande regional administrativo que tivemos… Grande abraço, querido Ze Airton,!!!!

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