A ferrovia chegou a Botucatu no dia 20 de abril de 1889. A inauguração causou grande alvoroço na cidade. A cerimônia foi prejudicada por conta do tumulto provocado pelas pessoas que se acotovelavam para tocar na locomotiva, uma novidade para os moradores da época.

A chegada do trem mudou radicalmente o panorama da cidade. O avanço da ferrovia como indutor do desenvolvimento para o oeste fez crescer sua importância, transformando-a com o passar dos anos em setor atrativo para quem buscava emprego que combinasse prestígio e bons salários.

Entre o final do século XIX e início do século XX cresceu de forma expressiva o número de famílias botucatuenses formadas por ferroviários. Trabalhadores que passaram a desempenhar as mais variadas funções para garantir que cargas e passageiros fossem transportados com segurança e conforto.

E uma das figuras mais respeitadas e admiradas no meio ferroviário sempre foi o maquinista. Demorou, mas em 2012, foi sancionada uma lei que instituiu 20 de Outubro como Dia Nacional do Maquinista Ferroviário. A data foi escolhida por ser o dia em que foi fundada a Associação dos Maquinistas e Ferroviários de São Paulo (AMAFER), em 1907.

Para celebrar a data e homenagear essa categoria tão importante, reunimos na sala da antiga estação ferroviária, um trio de maquinistas que compartilharam boa parte de suas vidas tendo a responsabilidade de conduzir as locomotivas que cruzavam o estado de São Paulo, transportando riquezas e aproximando as pessoas. Confira abaixo as histórias de Francisco Cavassini, Mário Calixto e Luiz Antonio Moreira

Dia do maquinista
Cavassini, Calixto e Moreira escolheram Botucatu para construir a carreira na ferrovia. Foto: Carlos Pessoa

Cavassini: o indignado

Eu nasci praticamente dentro de uma estação ferroviária. Meu pai era telegrafista. Meu quarto dava saída para a composição onde se vendia bilhete e o telegrafista fazia todo trabalho dele. O trem passava a todo momento. O movimento era muito grande. Foi nesse ambiente que cresci. Deus encaminhou a coisa tão perfeitamente que quando atingi a idade exata (17 anos e 2 meses) pude fazer o concurso para ajudante de maquinista e fui aprovado. Entrei na ferrovia em março de 1982. Fiquei um ano na escolinha passando por treinamento. Eu e meus colegas aprendemos todo o funcionamento de uma locomotiva. Sabíamos mais que artífice. Isso porque se o trem desse um defeito no meio do caminho, estaríamos capacitados para resolver o problema. Éramos como o Magaiver, fazíamos as gambiarras para dar um jeito do trem seguir. Depois do período de treinamento fiz mais dois anos de estágio de linha. Fiquei nove anos como ajudante de maquinista. Em seguida passei a maquinista de manobra e depois para trem de carga. Decidi sair em 1999 quando veio a privatização. Fui convidado a ficar mas como havia estudado achei melhor seguir outro rumo.

Triste abandono

A ferrovia chegou a ter 21 mil funcionários. Era uma família imensa. Vendo como era e como está hoje é uma tristeza que você não faz ideia. Botucatu tinha um movimento enorme e hoje quase nem trem de carga passa por aqui. A apresentação dos maquinistas na sede acontecia 24 horas por dia. De meia em meia hora havia equipes (maquinista e ajudante) se apresentando para o trabalho. Eram 48 trens no espaço de 24 horas. O Brasil, por ser um país de dimensão continental, deveria investir mais em ferrovias. É uma tristeza ver destruído um patrimônio construído às custas do sacrifício de tanta gente. Meu avô perdeu saúde trocando dormente na linha. Domingo retrasado teve um encontro de ferromodelismo em Bauru. Fomos fazer uma visita aos amigos. Pudemos visualizar no pátio as locomotivas que circulavam aqui, totalmente abandonadas e depredadas. Isso nos revolta. Onde estavam as autoridades?

Enganado pelo chefe

Uma vez estava namorando minha ex-mulher. Marcamos de sair à noite e fui buscá-la no serviço. Estava todo arrumado. Ela trabalhava no bar da estação em Presidente Prudente. Cheguei lá, dei de cara com o chefe. Ele deu graças a Deus em me encontrar. Havia um trem parado sem ajudante. Ele pediu para eu levar a composição até Martinópolis, que ficava três estações a frente, e lá uma equipe de Assis assumiria. Fazia duas horas que eu tinha acabado de chegar de viagem. Pulei o portão, liguei a locomotiva e sai com o trem. Cheguei em Martinópolis não tinha ninguém. Só consegui voltar no outro dia ao meio dia, sem comida e sem nada. Então a gente se sacrificava em prol da ferrovia. Sabia que nossa família dependia daquilo. Vendo como as coisas estão hoje dói profundamente na gente.

Amizades para toda vida

Trabalhei muito tempo no trem de passageiro. Fazia escalas longas. Achava mais tranquilo porque tinha horário para sair e para chegar. Tenho muita saudade por conta das amizades que formei. Era uma convivência constante com muitas pessoas. O maquinista tinha o privilégio de não se ater apenas a cidade em que morava. Viajei para muitas cidades. Fazia muitas amizades ao longo do trecho. Ia para Sorocaba, São Paulo, Assis, Prudente. Amizades verdadeiras que ficaram para o resto da vida. O pessoal da minha turma de escolinha em Assis se reúne todo ano. É uma irmandade. E o pessoal que trabalhou junto aqui em Botucatu também promove um encontro anual. Enquanto tivermos um pingo de saúde estaremos juntos.

Liberdade e solidão

Embora tardio foi muito positivo a instituição dessa data como homenagem aos maquinistas. É uma profissão que nos dá uma certa liberdade, onde você monta no seu trem e vai embora. Mas ao mesmo tempo é um tanto solitária. No começo da carreira, aos finais de semana, víamos os jovens da nossa idade indo para a discoteca e éramos privados disso porque tínhamos que trabalhar. Cansei de viver isso. Várias vezes eu estava de folga e duas ou três horas antes chegava o chamador em casa dizendo que havia dado problema em uma escala e teria que assumir o trem. Houve situações que eu estava até com a roupa de passeio, tive que tirá-la, pegar a mala sem comida, montar no trem e partir. Mas fui feliz como maquinista. Valeu a pena!

Dia do maquinista
Trio, hoje aposentado, auxilia nos trabalhos da ONG Proteffer, na estação ferroviária. Foto: Carlos Pessoa

Calixto: o saudosista

Vim de uma família de ferroviários. Meu pai era trabalhador de estação. Ingressei na ferrovia em abril de 1974. Eu morava na beira da linha e sempre gostei de trem. Não pretendia trabalhar na carreira de máquina como acabou acontecendo. Gostava mesmo da estação. O pai do Cavassini vivia me treinando no telégrafo, estafe. Naquele tempo tinha o CFT – Curso de Formação de Transporte. Quando completei a idade ele acabou e não pude fazê-lo. Depois surgiu a oportunidade quando estavam pegando pessoal que não tinha feito o curso. Prestei concurso e entrei. Éramos quatrocentas e trinta e oito pessoas e foram aprovadas trinta e duas. A partir daí começamos o treinamento de ajudante de maquinista em Assis. Vinte foram designados para virem para Botucatu. Fui um deles. Com vinte e um anos vim pra cá. Graças a Deus venci.

A carreira

Hoje sou mais botucatuense do que prudentino. Já faz 45 anos que estou aqui. Com um pouco de sorte, a graça e a misericórdia de Deus que sempre me ajudou, trabalhei nove anos como ajudante de maquinista, três anos como maquinista de manobra no pátio de Ourinhos e um pouco em Botucatu, oito anos com trem de carga, três anos com trem de passageiro e monitor no centro de treinamento. Nos últimos dois anos trabalhei como inspetor de condução. Supervisionava o serviço do pessoal de locomotiva. Um tempo de amizade muito bom e não tive problema com nenhum dos nossos profissionais.

Ficou por causa do sogro

Fui muito feliz como maquinista. No início ficava meio entojado porque tinha que trabalhar final de semana e a noite. Era jovem. Por conta disso cheguei a prestar um concurso na Unesp e estava querendo ir para lá. Eu já estava namorando minha esposa e meu sogro também era ferroviário, foi maquinista aqui também. Um dia conversando na casa dele me disse para não deixar a ferrovia. Falou que eu não sabia o que era trabalhar em hospital. Parei para pensar e vi que ele estava certo. Fiquei e acho que foi a decisão mais acertada. O conselho do sogro valeu e muito. Foi uma pena que ele faleceu antes de eu ter sido promovido a inspetor. Mas quando fui a maquinista ele ficou muito feliz. Ele era do tempo da Sorocabana. Almejava ter sido mestre de maquinista, mas não conseguiu chegar. Se tivesse vivo ficaria muito feliz em ver o genro dele ter chegado.

Paixão em família

Fui abençoado, formei minha família. Meu filho Rafael hoje também maquinista. Na maioria das vezes, quem gosta das coisas se identifica logo com o que faz. Mas no caso dele demorou um pouquinho. Hoje trabalha na Rumo Logística. Também tenho um sobrinho que é maquinista em Ourinhos. Esse já é apaixonado por locomotivas. Ficou dez anos tentando entrar na ferrovia e conseguiu. Ser ferroviário é paixão. 

Saudade que fica

Trabalhei 24 anos e 8 meses na Fepasa. Dentro do que foi possível fiz uma carreira dentro da ferrovia cheguei ao teto de locomotiva. Fui muito feliz e hoje tenho muita saudade do trabalho que executava. O importante era a liberdade que a gente tinha para trabalhar. Embarcava no trem e só tinha que cumprir o percurso. Era gostoso viajar. Se você fizesse seu serviço certo não tinha preocupação nenhuma. Nunca tive problema com ninguém. Tenho muita saudade. Hoje vemos as novas locomotivas  no corredor de exportação de Campinas a Santos, possantes e com ar condicionado. Seria muito bom conduzi-las. Na nossa época cheguei a trabalhar com a mais sofisticada que era a 2.200. Mas nem se compara com hoje.

Reconhecimento

A criação do dia do maquinista, para nós que estivemos dentro da área, é muito importante. E a gente se sente satisfeito em ver o reconhecimento e homenagens para a função que a gente exerceu. E incentiva aqueles que estão atualmente dentro da área. Acho que boa parte nem sabe que tem o dia do maquinista. Vou colocar no face para todos ficarem sabendo.

Dia do maquinista
Mais do que o profissionalismo, maquinistas construíram relação de amizade por toda a vida. Foto: Carlos Pessoa

Moreira: o realista

Trabalhar na ferrovia já era uma tradição dentro da minha família. Eu tinha um avô que era maquinista. Como eu morava na beira da linha eu o via chegando com o trem. Talvez tenha sido minha grande influência. Meu outro avô era truqueiro e meu pai mestre de linha. Entrei na ferrovia no dia 15 de março de 1982. Tinha dezessete anos e meio. Fiz um curso de CFAM até 1983. Fiquei um ano e depois meses na sala de aula estudando em Assis. Escolhi trabalhar em Botucatu. Estou aqui desde 1983. Fiquei ajudante de maquinista de 1983 a 1992. Passei a maquinista B em 1992. Depois de seis meses promovido a maquinista A. Fiquei até 2006 na função. Daí acabou a Fepasa, a Ferroban e mandaram a gente embora. Faltavam nove meses para dar meus 25 anos de ferrovia para aposentar. Então tive que trabalhar por fora para completar o tempo e garantir a aposentadoria.

Trem incendiado

Passei por muita coisa. Trabalhei muito tempo fora de casa. Sempre socorria Assis, Presidente Prudente, Presidente Epitácio. Trabalhava em manobra em Votorantim, Bauru. Teve um acidente comigo que muita gente lembra. Pegou fogo em um trem aqui em Toledo no dia 1º de ano, pouco depois das três da tarde. Passei num garrote (linha ensacada) e fracionou o trem. A parte traseira bateu na parte da frente, rasgou um tanque de combustível. Deu faísca e começou a pegar fogo. Eu era o maquinista e o ajudante era o Arlindo Abel de Campos. Ele olhou pra trás e disse que a coisa tinha ficado feia. Avisei o CCO que acionou os bombeiros.. Conseguimos tirar treze tanques do meio do fogo. Aí outro maquinista que veio de Rubião tirou mais um pouco por trás. Queimaram na época cinco tanques dos trinta e três carregados. Dava para ver a fumaça do diesel queimando lá do Rio Bonito.

Mudança de vida

No dia 26 de junho de 2006 um cara pega na minha mão e diz que a empresa não precisava mais dos meus serviços e que estava sendo dispensado sem justa causa. A ficha só cai depois que você sai. Fica com medo do que vai acontecer. Desde os 17 anos só sabia ser ferroviário. Não foi fácil. Vários amigos foram trabalhar na Vale do Rio Doce. Só não fui porque não tinha o estudo que eles pediam. No fim, com 50 anos de idade, depois de aposentado, é que fui tirar o segundo grau.

Saudade

Tudo o que eu tenho devo a ferrovia. Foi um período ótimo de minha vida. Eu gostava de trabalhar. Quando acabou a Fepasa, em 1998, eu trabalhava com trem de passageiro. Adorava correr com o trem. É outra forma de trabalhar. No trem de carga não importa se você dá tranco. Com passageiro é diferente porque estamos trabalhando com vidas. Tem que ser mais caprichado. O pessoal nem percebia a mudança de marcha da locomotiva. Era um tapete para andar. A gente ia para o ramal e em vários lugares quando apitava na passagem de nível sempre tinha alguém para acenar pra gente. Tenho saudade até dos moleques que atiravam pedra no trem. Quem jogava bola na beira da linha parava para ver o trem passar. Era um momento muito gostoso.

Barulho no ouvido

Tenho o sentimento, gosto da ferrovia, mas não fico lamentando. Em dez anos como aposentado sonhei com trem apenas duas vezes. Mas tenho no ouvido o barulho da locomotiva. Sei diferenciar os modelos e o sistema do trem pelo barulho. A batida da junta, a velocidade. O barulho das máquinas elétricas fica calado no ouvido da gente. Nunca vamos desaprender como trabalhar com uma locomotiva. Nas conversas que tinha com meu pai ele falava até a temperatura que tinha que estar o trilho para fazer a troca, o enquadramento. Meu pai passou trinta e cinco anos na via permanente. A ferrovia foi nossa vida.

Orgulho de ser maquinista

Apesar de cada um desempenhar sua função, todo ferroviário gostaria de ser maquinista. Quantos companheiros subiram na locomotiva quando estava manobrando. Muitos pediam para dar uma voltinha com a máquina. E ficavam maravilhados. Abismados como algo tão pesado conseguia andar nos trilhos. Fui muito feliz como maquinista. Acabei de me criar como homem aqui dentro.     

Dia do maquinista
O trio em frente a lendária estação ferroviária: maquinistas com orgulho. Foto: Carlos Pessoa

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3 COMENTÁRIOS

  1. Nossa qto depoimento bonito, me emocionei, tbem vivi 27 anos na ferrovia. E como disse o cavassini ” É uma irmandade”sim. Abracao moreira, calixtao e chicao e para toda familia ferroviaria. Adacyl maqta

  2. Bela matéria, também sou ferroviário da ativa comecei na Ferroban quando o Moreira ainda era maquinista junto com Sr Abel, conheço o Moreira eo Calixto, hoje faço inspecao ferroviária no metrô de Brasília trecho da Minas Bahia e Maranhão Tocantins e Belo Horizonte e já me encontrei muito no trecho da serra de santos com o Rafael filho do Sr Calixto, ser ferroviário e paixão no que faz.

  3. Pessoal muito bom …meus amigos dentro e fora da ferrovia….assim como eles fui tudo isso é me orgulho de ter passado por isso..
    E em dezembro estaremos nos reunindo para o encontro anual.

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