Faça sol ou faça chuva, o ritual se repete todos os dias. Estacionar o Corsa sedan preto do outro lado da rua. Pegar as muletas recostadas no banco traseiro, atravessar a Curuzu a passos lentos até chegar ao prédio simples, pintado de verde, de número 1.347. Abrir as portas, tirar a poeira e vestir o avental branco que traz bordado seu nome e ofício: Cyro Gonçalves – barbeiro.

Nascido em 9 de novembro de 1931, na Vila Rodrigues Alves, um dos sete filhos do servente de pedreiro Gabriel Gonçalves e da dona de casa Josephina Bertani aprendeu a ter responsabilidade logo cedo.

Assim que concluiu o curso primário no Grupo Escolar “Raphael de Moura Campos” saiu em busca de emprego para ajudar no sustento da casa. Tinha apenas 11 anos no primeiro contato com aquela que seria sua única profissão ao longo da vida.

Aprendizado

Começou como aprendiz na barbearia do sr. Devidé, na avenida Dom Lúcio, próximo onde hoje funciona a floricultura Agroflor.
“Naquele tempo não tinha escola e a gente ficava olhando o que o patrão fazia para aprender”.

O pequeno Cyro manuseava a máquina e batia a tesoura usando clientes imaginários. Era um bom exercício para tornar as mãos firmes e ágeis, condição imprescindível para quem pretende se destacar na arte da barba e do cabelo.

Um ano depois foi para o salão de Euclides de Lima, próximo ao antigo fórum (atual Pinacoteca). “Um ótimo barbeiro. Trabalhava muito bem”.

Não demorou muito e nova mudança. Foi contratado por Eliseu de Souza Nogueira, que tinha salão na Rua Cardoso de Almeida. Lá ficou por um bom tempo. O salão foi vendido, mas continuou trabalhando para o novo proprietário.
“Depois foi vendido para um barbeiro de Itatinga, Sr. Benedito, que foi meu último patrão”.

O próprio salão

Aos 16 anos surgiu a oportunidade de ter seu próprio negócio. A mãe ainda considerava o filho uma criança para assumir tamanha responsabilidade. Cyro decidiu recorrer a ajuda do barbeiro mais experiente da época, sr. Vicente Moscogliato, que tinha famoso salão na Rua Curuzu.

“Ele falou para minha mãe: dona Pina, eu comecei mais novo do que ele. Só que seu filho leva uma vantagem. Ele trabalha muito melhor do que eu trabalhava naquela época. Pode deixar que ele vai dar certo”.

Vicente Moscogliato, na foto ao lado da família, foi a grande inspiração de Cyro
Foto: Museu Histórico e Pedagógico Francisco Blasi

Assim nascia o Salão Líder. O nome foi escolhido sem ter um motivo especial.

“Achava que era uma palavra forte, pra frente. Graças a Deus deu certo”.

Seu primeiro ponto foi na Rua Amando de Barros, em frente ao prédio onde hoje está a sorveteria Skimell. Depois a dona pediu o prédio e acabou mudando para o endereço que o consagraria: a esquina entre a Rua Amando e a Campos Salles. Hoje o terreno é usado como estacionamento do Central Supermercados. Lá permaneceu por 43 anos.

Quando a rede de supermercados comprou o imóvel ainda atendeu os clientes por um ano no local sem pagar aluguel. Depois disso mudou-se para o prédio atual, onde funcionava a sapataria do sr. Ítalo Vicentini.

Deu uma arrumada no cômodo de despejo, com grande janelão e abarrotado de sapatos velhos. Transformou em salão e está lá está desde 13 de agosto de 1991. Considera Vicente Moscogliato seu guru na profissão. “Além de bom barbeiro era uma pessoa espetacular”. Mas na lista dos bons profissionais inclui nomes como Nicoletti, Lima, Eliseu, Colonezzi.

Cyro na porta do salão onde atende os clientes há 28 anos
Foto: Carlos Pessoa

Clientes, não. Amigos

A cadeira de barbeiro foi comprada de segunda mão e o acompanha há 70 anos. Nela já se sentaram centenas de clientes. Ou melhor, centenas de amigos como Cyro prefere dizer. “Não faço distinção de nenhum deles. Seja médico, advogado, sapateiro. Pra mim é tudo igual. Pagam o mesmo preço”, diz com bom humor.

Mas confessa que entre aqueles que há anos entregam a barba e o cabelo aos seus cuidados, alguns costumam deixar boas gorjetas.

Cyro sentado na cadeira que o acompanha há 70 anos
Foto: Carlos Pessoa

No espelho, em uma folha de sulfite, a lista de preços que mantém sem alteração há tempos: cabelo R$ 15,00 e barba R$ 10,00.
“Não mudo porque a maioria da minha clientela é formada por assalariados. Pra mim está bom esse preço. Mas quem quiser pagar mais eu aceito”.

O cliente mais antigo é o sr. Carlos Alexandre, da extinta Padaria do Felipe. É da época em que Cyro ainda trabalhava como empregado.
“Acho que apenas uma vez na vida ele deixou de cortar o cabelo comigo. O resto só eu mesmo. Fazia a barba e o cabelo do pai dele. Família muito boa”.

Sente-se feliz em fazer do seu salão um ponto de encontro de amigos, onde se discute de tudo um pouco: política, futebol, pescaria.
“Aqui a gente fica sabendo de tudo que acontece por aí”.

Em família

Meio sem querer, encaminhou um de seus irmãos para a mesma profissão. Rubens Gonçalves, falecido em 2015, trabalhou e depois foi proprietário do salão Elite, que por longo tempo funcionou na Rua Amando de Barros, onde hoje está a Lojas Americanas.

Irmão de Cyro, Rubens Gonçalves foi dono do Salão Elite, na Amando de Barros
Foto: Memórias Botucatu

“Ele tinha o sonho de ser pedreiro. Ainda garoto, teve uma cárie no osso da perna e ficou noventa dias engessado sem poder movimentar-se. O médico disse que ele não poderia fazer esforço físico. O sonho de ser pedreiro foi podado pela nossa mãe. Ela disse para meu irmão acompanhar meu serviço na barbearia. No começo era um desespero. Ele não queria. Mas com o tempo se adaptou e trabalhou a vida toda na profissão”.

Ambos ajudaram na formação da Associação dos Barbeiros, entidade que reunia os profissionais da cidade. Como não havia oficialmente o dia do barbeiro, comemoravam junto com o Dia do Alfaiate, em 6 de setembro.
“Foi uma época muito boa. A gente se reunia, tinha missa, festa, almoço. Mas com o tempo isso tudo foi acabando”.

Barbeiros, alfaiates e suas famílias posam para foto após missa na Catedral nos anos 1970
Foto: Memórias Botucatu
Cyro confraterniza com colegas de profissão, na Chácara dos Bancários, em 1972
Foto: Memórias Botucatu

No próximo dia 19 de setembro completará 60 anos de casado. Da união com Julieta vieram os filhos Gabriel e Gisele (já falecida). Fala com orgulho e gratidão quando o assunto é a família que formou.

“Eu não posso reclamar de nada. Sou realizado e feliz. Tenho que agradecer a Deus por me dar um casal de filhos muito bom, uma esposa excelente, duas netas e dois bisnetos. Nunca esperava que tivesse a chance de me tornar bisavô. É uma benção”.

De bem com a vida

Uma deformação nas pernas, que o acompanha há 20 anos, traz limitações. Para se locomover e até para trabalhar Cyro hoje faz uso de muletas. Mas nada disso tira seu bom humor ou interfere na forma leve como encara a vida, próximo de completar 88 anos.

“Sou muito grato a Deus por tudo que me deu. Se você aceitar a situação sofre menos. Uso isso como lema de vida. E também acho importante que não faça para o seu semelhante o que não quer que seja feito para você. Se coloque no lugar do outro e você não vai errar nunca”.

Ao contrário de outros barbeiros mais velhos, vê com bons olhos a abertura de novas barbearias e as mudanças que a profissão experimentou ao longo do tempo.

“Eu continuo no trivial, mas hoje tem cortes de cabelo muito diferentes. E a moçada gosta. A época é deles. Temos que aceitar a evolução”.

Perto de completar 88 anos, Cyro é o barbeiro há mais tempo na profissão em Botucatu
Foto: Carlos Pessoa

E Cyro conclui o bate papo exaltando o fato de ser o barbeiro que está mais tempo em atividade na cidade.

“São 76 anos de profissão. O segredo é que venho sempre trabalhar como se fosse o primeiro dia. O trabalho é uma das melhores coisas que existem. Faz bem para a cabeça e me garante algumas regalias a que me permito, como pescar e ter um carro. Enquanto eu tiver condições eu vou trabalhar”.


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