No último sábado (24), comemorou-se o Dia da Infância. A data, criada pela UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), nos leva a refletir sobre o que é possível fazer para melhorar a situação dos pequenos, assumindo que são indivíduos mais vulneráveis e que precisam de atenção especial.

Algumas pessoas, com habilidades especiais e admirável talento, dedicam a vida a promover o bem estar das crianças. É o caso da empresária, atriz e cantora Fabiana Godoy. Essa botucatuense encontrou no trabalho com o público infantil sua realização pessoal e profissional.

Tudo começou há 18 anos, durante a gestação de Luan, seu primeiro filho. Fabiana, que sempre teve uma história com a música, passou a se interessar muito pelos estímulos que ela poderia proporcionar para os bebês e gestantes. Ao mergulhar nesse universo, observou que a música é uma forte aliada na arte de educar.

Educar através da música

Nessa época passou a dar aulas de musicalização para bebês mostrando o quanto é importante não criar lacunas musicais no desenvolvimento da criança. “A principal fase de desenvolvimento do ser humano é do zero aos três anos. Quando a maior parte das ligações cerebrais está se formando e vão reverberar pelo resto da vida. Nós somos seres musicais, mas se a gente não apresenta a música para a criança, as janelas de aprendizagem, as sinapses cerebrais vão se fechando e depois é difícil de resgatá-las”, explica.

Ao garimpar material para utilizar em casa com seu filho e também em seu trabalho, sempre esbarrava nas mesmas canções. Não havia repertório. Decidiu ela mesma compor. Precisava de uma música para guardar brinquedo, lá vinha uma canção. Precisava de uma música para o bebê comer, lá vinha outra canção. Nada rebuscado, mas tudo muito terno. E as crianças adoraram. A inspiração só cresceu e hoje já são mais de 80 canções infantis autorais.

Passou a dar cursos em creches, berçários e escolas para apresentar esse material para os educadores. Em 2013, diante dos insistentes pedidos gravou um CD com 23 canções. O trabalho recebeu o nome de Ninho Musical. “As mães queriam ter as canções em casa para usar na rotina com os filhos. Tudo vai virando música porque estou com as crianças o tempo todo. São canções bem simples porque elas não precisam de nada complicado”, diz ela.

Esse trabalho inicial derivou para o teatro. Com roteiro também escrito por Fabiana, o “Ninho Musical” ganhou os palcos. Mas não parou por aí. Criou o curso online “Educar Através da Música”. Também produziu e apresentou um programa de TV, sempre destacando a música como ferramenta para o desenvolvimento infantil.

Projeto Ninho Musical resultou em CD e trabalho teatral
Foto: arquivo pessoal

O lado maternal ficou ainda mais aflorado com as chegadas de Nina e Bruno, hoje com 7 e 8 anos. E suas convicções sobre a importância de colocar música e educação de mãos dadas só crescia. Tudo passou a ganhar ainda mais sentido quando conheceu a Abordagem Pikler que atua muito com a autonomia, o brincar livre e o respeito à criança. Tornou-se uma especialista no assunto. Passou a sentir a necessidade de ter um espaço onde pudesse proporcionar na prática tudo que aprendeu ao longo de 18 anos. Era o momento do ninho virar casa.

Casa do Ninho

Há pouco mais de um mês, Fabiana abriu as portas da Casa do Ninho, espaço que une música e educação de forma lúdica e acolhe crianças de quatro meses a seis anos por hora, por período integral ou no contraturno escolar. Localizada na Rua Dr. Cardoso de Almeida, 1075, Centro, une duas grandes paixões de Fabiana: a Abordagem Pikler e a arte de educar através da música.

“Sou mãe e sei o quanto é difícil trabalhar e cuidar dos filhos ao mesmo tempo. Por isso muitas crianças estão ficando em frente das telas, hipnotizadas, sem criatividade. Foi isso que me motivou a investir em algo diferente. A Casa do Ninho é como se fosse uma escola, mas sem a rigidez tradicional. Na verdade é uma casa que acolhe”, explica.

Bebês e crianças são estimulados com atividades lúdicas
Foto: arquivo pessoal

Para ela, que considera a criança um ser sagrado, nada mais adequado do que criar um lugar encantado onde pudessem viver experiências significativas e prazerosas, com respeito ao tempo da infância e a valorização do livre brincar. E o que não falta lá são atividades: música, argila, pintura, experimentações, contação de histórias, inglês lúdico, teatro, dança, brincar livre, yoga, texturas, cheiros e sabores, brincadeiras folclóricas e muito mais.

A Casa do Ninho trabalha com grupos pequenos porque a abordagem é muito específica, onde o vínculo com o cuidador é muito importante. A prioridade é deixar as crianças brincarem livremente. As atividades são propostas, não impostas. A criança faz aquilo com o que se identifica. Tudo acompanhado de muita música.

Cada detalhe foi pensado para o pleno desenvolvimento da criança atendida. Para se ter uma ideia, todos os móveis foram escolhidos de modo a trabalhar habilidades como motricidade, movimento livre, força e confiança.

Apesar do pouco tempo de funcionamento, Fabiana está feliz com o resultado. E encara a Casa como materialização de sua missão de vida. “O mundo está muito enlouquecido. Criança precisa aprender a subir em árvore, escorregar, trabalhar em jogos de montar, correr, pular. Hoje as crianças não se frustram. Começam a chorar a mãe já vem com o desenho no tablet. E daí quando tem a primeira frustração precisa fazer terapia porque não dá conta. Quando se monta um espaço como esse pensando em tudo que a criança e os pais precisam é super terapêutico. Nosso trabalho está só no começo. Estamos semeando”.

Casa do Ninho: educar com música; brincar com liberdade
Foto: arquivo pessoal

Anjo Micael

Quem não conhece a história de Fabiana nem desconfia que ela recentemente passou por um grande drama pessoal. Micael, seu quarto filho, faleceu pouco depois de nascer, em 2018. A dor, inicialmente, veio acompanhada por questionamentos e revolta. “A gente planeja tanto e, de repente, ele não fica. Perguntava por que Deus estava fazendo aquilo comigo. Justamente eu que me dedicava a cuidar de crianças”.

Fabiana passou a encarar a partida precoce do anjo Micael como uma espécie de sinal para o fortalecimento de uma missão que ela deveria levar adiante.

“A impressão que dá é que ele se retira para que eu pudesse proporcionar isso para mais crianças. Para poder multiplicar. É isso que me fortalece. É como se ele fosse um guardião dessa história. Ele está cuidando das crianças e da gente. Se ele estivesse aqui não estaria com esse espaço e proporcionando isso para tantas crianças. Estaria cuidando dele. Vejo que é como se ele dissesse, vai por aí, mamãe. É isso que você tem que fazer”.


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